PETER SANDBERG

Na música do sueco Peter Sandberg todas as categorias se confundem – clássica, de câmara, cinemática ou ambiental – mas não faz mal, porque no fim o que daí resulta é um som celestial. Criador de inúmeras peças para cinema e televisão é um prolífico compositor capaz de trabalhar as cordas com enorme sensibilidade. Em Portugal apresentar-se-á, sentado, ao piano, revelando algumas das suas peças mais delicadas, feitas de notas e cadências, silêncios e melodias, histórias sonoras.

Música doce, ondulando em câmara lenta, povoada pelas notas de piano, insinuando-se como filigranas em crescendo, numa subtil tapeçaria sonora feita de maneira aparentemente simples, evocando formas, espaços, paisagens e personagens tocadas pela humanidade. É música instrumental tão rigorosa quanto emotiva aquela que propõe.

Cada tema cria as suas próprias imagens, mas em conexão com um sentido geral. Por vezes aproximamo-nos do sossego, outras vezes de uma espécie de sinfonia sumptuosa com as notas elevando-se em espiral. Como tantos outros jovens músicos que se movem pelos terrenos da música neoclássica ou pós-clássica, mais do que fazer ligações entre géneros ou preocupar-se com classificações, interessa-lhe o tipo de sensações que difunde. Perdermos a noção de tempo e espaço. Induzir o ouvinte a uma experiência diferente. Transcendermo-nos.

Na música de Peter Sandberg criam-se pontes invisíveis entre escolas e geografias, tanto fazendo ressoar o minimalismo como a música cinemática ou as palpitações da música clássica contemporânea. A forma como acaricia o piano resulta em qualquer coisa intensa sendo capaz de iluminar a melancolia, com delicadeza e sabedoria. Às vezes, na maior parte das vezes, não é preciso absolutamente mais nada.

PIANORQUESTRA

10 mãos e um piano preparado. Quem diria que um conceito que teve, por exemplo, em John Cage um dos seus grandes criativos – o de intervir sobre a mecânica sonora do piano através da adição de objetos a ele estranhos – poderia ter uma vida tão diferente? É essa a proposta dos brasileiros da PianOrquestra, grupo singular que toma o piano como um quase infinito universo de possibilidades.
O Globo nomeou o seu espetáculo como um dos melhores do ano e o histórico João Bosco, que fez uma digressão dedicada a Pixinguinha com a PianOrquestra, descreveu-os como “uma surpresa” e classificou o espetáculo conjunto como “maravilhoso”. O grupo, que garante produzir, “música instrumental brasileira como nunca ninguém viu ou ouviu” inclui o consagrado pianista Claudio Dauelsberg que se apresenta ao lado das também pianistas Mariana Spoladore, Priscila Azevedo e Anne Amberget além da percussionista Masako Tanaka. Neste formato, a PianOrchestra tem pisado os mais conceituados palcos mundiais arrancando sempre os mais efusivos aplausos e elogios.

WILKO JOHNSON

Blow Your Mind”: o título do mais recente trabalho de Wilko Johnson, datado já de 2018, é também uma promessa. É que o antigo líder dos míticos Dr. Feelgood, banda gigante na Inglaterra dos anos 70 e que chegou a tocar em Portugal no arranque dos anos 80 aquando da explosão rock que assolou o nosso país, pode mesmo espantar-nos.

A vitalidade de que goza agora, depois de editar um álbum com Roger Daltrey dos The Who em 2014 cujo título, “Going Back Home”, soava a despedida, é compreensível. Por volta dessa altura foi diagnosticado com um cancro terminal e inoperável, mas depois, como escreveu Alex Petridis no Guardian em 2015, “aconteceu a coisa mais estranha: Wilko não morreu”.

Depois de ser diagnosticado, o antigo líder dos Dr. Feelgood (banda precursora do punk, praticante de um feroz rhythm n’ blues que influenciou gente como Paul Weller dos The Jam ou Joe Strummer dos The Clash) marcou uma digressão de despedida e nas muitas entrevistas que concedeu comoveu um país com a sua tranquila aceitação da mortalidade.

Johnson gravou então com Daltrey, convencido de que não chegaria a ver o disco editado, cruzou-se com um fã médico que o recomendou a um colega, acabou mesmo por ser operado e, depois de uma série de complexos procedimentos, acabou por ser declarado como curado do cancro. O disco “Going Back Home” chegou aos tops, feito que Wilko Johnson não conseguia desde 1976, e agora, cá está no presente, com um justo estatuto de lenda.

Depois de ter tido uma participação em “Game of Thrones”, como o enigmático carrasco mudo Ser Llyn Payne, Wilko gravou o novíssimo “Blow Your Mind” com uma banda que inclui músicos como Mick Talbot, dos Style Council, ou Norman Watt-Roy dos Blockheads de Ian Dury.

MISIA – PURA VIDA

NEW ALBUM OUT SPRING 2019

New Tour from Spring 2019
New concert Production Line-up:
– Vox;
– Piano;
– Violin;
– Clarinet;
– Portuguese Guitar.

EN
PURA VIDA
(soundtrack)
Mísia knows well, that pure life occurs, when life is contaminated by emotions, and by ideas, and by experiences. Pure life carries with it the traces -visible and invisible ones- of those who pass through it. That is what Mísia sings about, with the soul of someone who knows well, how much bitterness a black shawl is woven from. This Fado singer understands, how to love Amália and many other voices, of poets and sailors, of composers and musicians, who have created a unique journey and repertoire of more than 25 years with her on stages and in studios, addressing paths and spaces unknown to Fado, but which she was not afraid to explore, because she felt, that it had to be done.
Because she felt it.

In Pura Vida, Mísia returns to singing Fado, which is neither sad nor happy, as she likes to say. It is Destiny. She sings once more about feelings and emotions, equally filled with greatness and misery. With the Fados chosen for Pura Vida, it is Mísia’s intention to sing using the vocabulary and the grammar of emotions: la Ausencia (Absence), el Cuerpo (the Body), el Destino (Destiny), os Homens (Men) and las Ruas (the Streets), el Tiempo (Time) and la Saudade (Portuguese melancholy and longing), everything or almost nothing at all. Life at it’s purest. “And other letters of the alphabet” she says. All this is done by falling back on classical Fado music, with contemporary arrangements and unpublished poems, most of them written for her voice.

Because pure life, a  Pura Vida, is made of certainties, obviously, but also of surprises.

Text Rui Miguel Abreu
Translation Barbara Neumann

ES
La vida, Mísia lo sabe bien, es pura cuando se deja contaminar por las emociones, por las ideas y por las vivencias. La vida es pura cuando carga con las huellas –las visibles y las invisibles– de quien se atraviesa en ella. Eso es lo que canta Mísia, con el alma de quien sabe bien con cuántas amarguras se teje un chal negro. Esta fadista ha sabido amar a Amália y a muchas otras voces, de poetas y marineros, de compositores y músicos, que con ella hab creado un singular recorrido y repertorio de más de 25 años de entrega a escenarios y estudios, dirigiéndose tantas veces a caminos y espacios que el fado no conocía, pero que ella se atrevió a trillar porque sentía que tenía que ser.

Porque sentía.

En Pura Vida, Mísia vuelve a cantar fado, que no es triste, ni alegre, como le gusta decir. Es Destino. Vuelve a cantar sentimientos y emociones con su grandeza y miseria en igual medida. Con los fados escogidos para Pura Vida, Mísia pretende cantar el léxico y la gramática de las emociones: el Amor y el Beso, el Cuerpo, el Destino y la Esquina, la Felicidad, el Grito, el Mar y la Saudade, el todo o el casi nada. La vida en estado puro. “Y otras letras del abecedario”, asegura ella. Todo esto recurriendo a fados clásicos y a algunos inéditos.
Porque la vida, la pura vida, está hecha de certezas, obviamente, pero también de sorpresas.

Traducción de Ricardo Negrete Plano

 

ESCREVO NA PELE


FADO DOS DOIS


AUSÊNCIA

Beatriz Nunes

Selecionada por um júri ligado ao European Jazz Network, Beatriz Nunes apresentou-se no âmbito da conferência On The Edge, em concerto, realizado em Portugal no passado mês de Setembro, honra que premeia um intenso percurso de entrega à causa da música.

Canto Primeiro é título de álbum, mas não traduz verdade porque Beatriz Nunes, 30 anos, , tem um percurso já vasto, feito de estudo e entrega, de experiências intensas – do Conservatório a digressões internacionais com Madredeus ao lado de Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade -, de exploração de múltiplas vertentes – da música popular e do jazz, à erudição do canto lírico – de devolução dos conhecimentos adquiridos através do ensino – dá aulas na Escola de Jazz do barreiro e na Escola Profissional Ofício das Artes em Montemor-o-Novo. Na verdade, 30 anos é muito pouco para tanta bagagem. E foi isso que os especialistas do European Jazz Network reconheceram quando a premiaram com um primeiro lugar entre as muitas candidaturas para espetáculos a realizados no âmbito da conferência On The Edge que teve lugar em Lisboa no passado mês de Setembro.

Em 2018, Beatriz Nunes assina também a sua própria estreia com um Canto Primeiro que afinal de contas já vem com lastro de talento pronunciado. É um disco ambicioso em que se afirma como compositora e produtora, um disco que mereceu a Rui Eduardo Paes, autêntica referência na crítica jazz nacional, o vaticínio de auspiciosa estreia – “não poderia ter começado melhor o percurso discográfico que se espera daqui por diante”, afirmou, nas páginas da revista jazz.pt.

Na companhia de Luís Barrigas (piano), Mário Franco (contrabaixo) e Jorge Moniz (bateria), Beatriz assina um disco íntimo, que procura o conforto do silêncio no sussurro de uma voz que se conhece muito bem: Beatriz estudou técnica vocal com Kim Nazarian e composição com Lauren Kinhan e Peter Eldridge, da Berklee College of Music; participou em workshops de Circle Singing liderados por Rizumik, professor do Omega Institute, NY (EUA) e Sofia Ribeiro; frequenta o Mestrado em Ensino da Música na Escola Superior de Música de Lisboa. Impressionante, certo?

Isso ajuda a explicar que em 2018 tenha sido escolhida pela European Jazz Network para a conferência On The Edge que teve lugar em Lisboa no passado mês de Setembro. Entre centenas de candidaturas, a proposta de Beatriz Nunes foi eleita em primeiro lugar para figurar no primeiro lugar da conferência: “Beatriz Nunes tem feito um percurso entre a música clássica e o jazz”, escreve-se no programa oficial. Verdade: Beatriz Nunes procura os mais elevados espaços para a sua voz e em Canto Primeiro expõe alma e técnica apurada em reportório próprio e até num equeno tesouro de um grande José Afonso, como quem reclama um lugar numa historia que ainda continua a ser escrita. Por vozes como a sua…