SOFIA HOFFMANN

“One Soul”, o album de estreia de Sofia é um passo em frente no seu caminho musical, que conta com atuações nacionais e pontualmente no estrangeiro. Ao vivo faz-se acompanhar por alguns dos melhores músicos de Jazz portugueses, que estiveram presentes na gravação do seu disco. Incorpora o seu corpo e alma, na sua música e nos poemas cantados, numa homenagem amorosa às suas experiências de vida, que delinearam a inspiração para as suas maravilhosas faixas que compõem “One Soul”.

MARIA DE MEDEIROS & THE LEGENDARY TIGERMAN

Cinema é música, não achas?
E música é cinema. Quando eu era criança, o meu pai contava histórias sobre sinfonias.
Enquanto a música majestosa se expandia, vinham imagens e mais imagens. O arrepio e a emoção na garganta.
Como vês a música, tu?
Ouço o silêncio. Sim, há música no silêncio.
A música das esferas diz William Shakespeare. O estrondo do universo, diz a Nasa.
The universe rocks and rolls.
E o que vês agora? Vejo a imagem gráfica, a preto e branco, o fumo do cigarro na boquilha da Marlene Dietrich. Ich bin von Kopf bis Fuss auf Liebe eingestellt.
Canta, da cabeça aos pés, e desliza o seu olhar pelo mundo.
É isso, olhar para o mundo. Um mundo triste e bonito.
Uma mulher sozinha na noite, It’s a sad and beautiful world.
E iluminando tudo, a noite e o tempo, surge uma voz italiana, cheia de alegria.
24 Mila Baci! Sempre adorei essa canção. Agora, são como 24 mil beijos mandados da distância. Um adeus longínquo.
Como Fernando Pessoa quando se despede da infância. E lembra o tempo em que se festejava o seu aniversário.
E há outra melodia. Tenho uma história curiosa com ela. Detestava-a. Era a melodia dos pátios. Em todo o pátio, havia uma voz arrastada que cantarolava essa música. Sempre a mesma, insidiosa. Mas depois fui crescendo, e sabes aqueles alimentos que odiamos quando somos crianças e depois se transformam em iguarias? É isso: a trilha do Padrinho.
Nino Rota, claro, mais que persistente, imortal.
E as tuas trilhas. Fizeste tantas trilhas para o cinema. Fizeste tantos filmes. É inseparável.

É uma espécie de fado. Sim, diz que é fado.

Lina_Raül Refree

Estreia internacional no festival La Mar de Músicas, Catagena (Espanha), a 24 de Julho de 2019.

Numa noite de fados as vozes mostram-se autênticas: sem amplificação, sem adornos e sem filtros, apenas nervo e talento, alma e paixão. Raul Refree entende bem o que é isso da paixão e como marca as vozes, tendo assinado a produção de Los Angeles, o álbum que colocou o fenómeno internacional Rosalía no mapa. Por isso mesmo, o músico e produtor não teve dúvidas quando ouviu Lina cantar no Clube de Fado, que é uma das mais reputadas casas desta cultura na capital, pouso certo de grandes vozes e viveiro de muitos talentos resguardados por Mário Pacheco, guitarrista que acompanhou os maiores artistas, incluindo a eterna Amália. E foi aí, à meia luz, num momento solene e autêntico, que Raul Refree se apaixonou pela voz de Lina.

A ideia de se juntarem num estúdio foi imediata e pouco depois cruzaram-se ambos numa sala especial, nos arredores da capital. Rodeado de sintetizadores vintage, de Moogs e Arps, de Oberheims e Rolands, mas também com o piano muito perto, Raul emoldurou a voz de Lina em névoa analógica, deixando as guitarras do fado na nossa imaginação, mas retendo toda a força de uma garganta carregada de verdade.

Lina mostrou-se à altura do desafio. Estudante atenta da obra de Amália, escolheu uma série de pérolas do reportório da Diva com o intuito de as usar como base de comunocação. Como se este projecto nascesse de uma busca do assombro, da essência. Já com um percurso dentro do fado muito sólido, mas também com estudos de canto lírico que lhe moldaram a entrega séria que possui, Lina partiu para esta aventura com uma bagagem muito funda, com plena noção do que a sua voz consegue transmitir.

Os arranjos resultaram extraordinários. Refree, que tem uma longa carreira na pop mais desafiante e que como produtor já assinou dezenas de trabalhos, de Sílvia Perez Cruz a El Niño de Elche ou Lee Ranaldo, além da já mencionada Rosalía, é um artista de extraordinária intuição. A curiosidade sobre o fado também o tinha

acercado da obra de Amália Rodrigues em que identificou uma força universal tão intensa quanto a que marcava os clássicos de flamenco que bem conhecia. Concordaram ambos imediatamente que deveriam explorar o reportório da eterna fadista, despindo-o dos dogmas instrumentais do fado, mas retendo a sua mais funda alma.

Lina, com voz maturada pelas noites nas casas de fado, pela sua própria devoção por Amália e por todas as grandes vozes que ouviu, sentiu e estudou, é uma artista verdadeiramente especial: soa como se tivesse nascido no meio da história, a ouvir as divas a ecoarem nas vielas da sua imaginação. Soa autêntica e comovente. E por isso conquistou Refree.

Em temas como “Barco Negro” ou “Foi Deus”, “Ave Maria Fadista”, “Medo” ou “Gaivota”, qualquer um deles um monumento maior da memória do fado, Lina mostra-se artista completa, verdadeira e de um talento capaz de nos assombrar a todos. As suas interpretações são sobretudo humanas, emocionantes, preferindo arrancar as palavras ao coração do que moldá-las com a técnica que também estudou. Essa entrega oferece uma outra luz ao fado nos arranjos que Raul Refree lhe preparou. Sem truques ou filtros, mas com arte e com uma abordagem nunca antes tentada vestindo o fado com uma inédita roupagem electrónica que ao invés do o desvirtuar só lhe reforça a condição universal.

O fado é património imaterial da humanidade, uma cultura que ajuda a identificar um país que anda nas bocas do mundo e que tem atraído muitos artistas a Lisboa. Vindos de fora, esses artistas buscam no fado um terreno ainda imaculado, um rasgo de autenticidade num universo musical tantas vezes rendido ao artifício. Foi exactamente isso que trouxe Raul Refree a Lisboa. Essa busca do que é novo e sem tempo do que estremece e que o mundo precisa de ouvir. Mesmo que para tanto seja necessário desafiar as regras. É assim, afinal de contas, que se faz história.

 

AVISHAI COHEN


Avishai Cohen é uma das maiores referências contemporâneas no contrabaixo de jazz. O músico, compositor e vocalista israelita chegou a Nova Iorque – o centro do universo jazz – no arranque dos anos 90 e, enquanto estudava na prestigiada New School for Jazz and Contemporary Music tocou na rua para sobreviver até conseguir entrar no disputado circuito de clubes. A mudança na carreira chegou com um telefonema do grande pianista Chick Corea: em 1996, Cohen foi um dos fundadores do colectivo Origin, liderado por Corea. Foi aliás na etiqueta Stretch, do próprio Chick Corea, que Avishai Cohen lançou os seus primeiros quatro registos como líder. Avishai manteve-se nos projectos de Corea até 2003, quando decidiu começar o seu próprio trio e a sua editora, a Razdaz Recordz, operação que já soma praticamente duas dezenas de lançamentos, incluindo vários do própio Avishai Cohen.

From Darkness é o mais recente título na discografia do trio de Avishai Cohen, trabalho apontado como mais um extraordinário capítulo na sua busca pela pureza. Mas em 2017 o artista lançou em nome próprio 1970, trabalho que mereceu igualmente rasgados elogios por parte da imprensa internacional especializada. Não é de espantar por isso mesmo que o The Jerusalem Post descreva Avishai Cohen como “a mais bem sucedida exportação jazz do país”, o que vai ao encontro do que a revista de referência Down Beat refere em relação ao músico: “um visionário jazz de proporções globais”. Já o seu antigo “patrão”, Chick Corea, aponta-o como “um grande compositor” e “um músico de génio”. Marcas de peso que o cantor e contrabaixista carrega consigo para o palco com um trio que o Guardian sublinha ser “fabulosamente realizado”.

FERNANDO CUNHA

EM PARCERIA COM XAPA13
O novo álbum, composto por 14 temas, traduz a forma principal de expressão de Fernando Cunha e o que acredita ainda ser um instrumento que poderá estar “em vias de extinção” no atual panorama pop. “A minha ideia inicial era fazer um disco instrumental que partisse de alguns dos universos mais ambientais do pós-rock e do rock progressivo, de influências de sempre na minha vida como os Talk Talk ou Radiohead e mais recentemente Steve Wilson ou Jonathan Wilson e juntar-lhe um universo específico dentro de todo o legado dos Delfins”, explica o guitarrista e compositor.
“Afastei-me”, “Hoje” e “Se Eu Pudesse Um Dia” são alguns dos temas clássicos dos Delfins que ganham uma nova vida em “A Guitarra A Tocar”, sendo que o último está presente no alinhamento em duas versões distintas, uma delas misturada pelo produtor Jonathan Miller.

Enquanto os instrumentais começavam a nascer, surgia a necessidade de trabalhar a voz. Apesar do músico se ver, primeiro, como um “guitarrista que adora cantar”, aceitou o desafio de dar voz a este novo disco. Não tivesse a voz de Fernando Cunha ecoado nos mais importantes palcos nacionais à boleia dos Resistência.

O novo álbum conta com as colaborações de João Gomes; do pianista/teclista João Pedro Pimenta, de alguns dos mais reconhecidos guitarristas como Tó Trips, João Cabeleira, Flak e Mário Delgado, entre outros; de Jonathan Miller, Gary O’Toole (histórico baterista dos Genesis) e, ainda, do coro Gospel Collective liderado por Selma Uamusse.

A importância do contributo de Fernando Cunha nos Delfins é inquestionável. Em conjunto com Miguel Ângelo, o guitarrista criou algumas das mais memoráveis canções da música pop nacional, como “Baia de Cascais”, “Um Lugar Ao Sol”, entre tantos outros. A bagagem que ganhou com os Delfins levou à formação do coletivo Resistência, com Pedro Ayres Magalhães, Miguel Ângelo e Tim, projeto que tem percorrido o país de norte a sul em concertos que têm celebrado, de uma forma grandiosa, o melhor da música nacional.