Dom La Nena

DOM LA NENA – “SOYO”
por Marcelo Camelo
Dom é exemplo raro das contradições que carregamos. Uma menina doce de rosto franco e olhos determinados, que compõe com frescor germinal as canções que ainda queremos ouvir, canções sobre os sentimentos que nos são tão verdadeiros que as vezes escapam desapercebidos entre as luzes e presenças de apelo mais cintilante. Canções de leveza feminina, de olhar indireto, dos assuntos que se enredam no silêncio.
Tudo parece fazer os olhos correrem no mesmo sentido até ela se sentar ao pé do violoncelo e começar a arrumar-se pra tocar. As luzes diminuem, as cores se intensificam, as paredes se ajeitam, tudo vai tomando outra forma e o ar entre nós e ela se adensa. Seu rosto fica sério de um jeito a conseguir anunciar o que vem. Mas é quando o seu arco encosta nas cordas do violoncelo que você tem verdadeiramente o outro espectro de Dom em estado bruto. Pelo som que ele causa mas também pelo que o som causa nela.
As dualidades se entrelaçam, se enamoram, se confudem e transformam. Não somos capazes de isolar características nossas umas das outras. A compositora encontra a violoncelista que encontra a menina. Todas se tocam. Transformam-se mutuamente em cena criando uma visão destas que pode fazer parar o tempo.
E um tempo parado parece mesmo o apropriado pra ouvir o que ela tem a nos dizer. Uma história não daquilo que é absurdo e excepcional, mas daquilo que encontra seu caminho na sombra dos grandes acontecimentos. A verdade perene escondida injustamente dos menos sensíveis por alguma explosão oportunista. São nossas pequenas saudades, pequenos desencontros, as ausências que nos fazem mais humanos e mais reais.
Dei-me aos seus versos como se fossem meus, com carinho e identificação com ela e suas histórias. Fazíamos graça ao descobrir o samba ou algum dos seus desdobramentos em quase todas as músicas, logo ela gaúcha, crescida em Buenos Aires e residente em Paris. Fazendo ecoar ranchos e rodas de Jacarepaguá, meu bairro de infância no subúrbio carioca.
Fizemos isso no estúdio do meu compadre, com a presença do importante Jérôme, companheiro de Dom e muso dos seus feitiços. Embalados por um carinho mútuo e um volume de trabalho que fez as horas parecerem minutos.
Assim como eu, naqueles dias de inverno todos em volta deste projeto sentiram-se envolvidos pela beleza das canções e pela fluidez com que elas decorrem. Todos se encantaram com Dom e seu mundo e eu me senti honrado e agradecido por estar dentro dele por um breve momento. Testemunhar as suas transformações e a sua alegria viva, poder dançar imaginariamente o samba que está em tudo que é bom, me fez também mais feliz.

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Disponibilidade

Maio (3 a 6)

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