ENEIDA MARTA

2015-04-28 at 19-35-21-leveBasta ouvir, no arranque de Nha Sunhu (2016), a voz que canta “Ó África, Ó tabanka, Ó povo” para se perceber que Eneida Marta é uma artista especial, que a sua alma possui uma profundidade invulgar e que o seu timbre distinto pode equilibrar lamento e esperança na mesma palavra, no mesmo sopro. Não é difícil apaixonarmo-nos por Nha Sunhu e pela voz de Eneida Marta. Difícil será depois disso mantermo-nos longe dela.

A cantora guineense nasceu em Bissau há 42 anos, pouco antes da antiga colónia portuguesa declarar a sua independência. Uma altura auspiciosa, portanto. E faz, por isso mesmo, sentido que Eneida Marta cante a liberdade, o amor, as coisas realmente importantes da vida. E a verdade é que Eneida, nascida numa família de fortes inclinações artísticas, sempre cantou, desde menina. Foi com Juca Delgado, já em Lisboa, que começou a dar passos mais sérios na música, colaborando com artistas conceituados como Dom Kikas, Rui Sangara, Aliu Bari ou Iva Ichi antes de se estrear, em 2001, com Nô Storia, disco que a levou a apresentar-se em palcos de Cabo Verde, França, Holanda, Alemanha e, claro, Portugal e Guiné Bissau. Seguiu–se, em 2002, o álbum Amari que despertou interesse do gigante da world music Putumayo: nesse mesmo ano, a editora americana incluiu trabalho de Eneida Marta na sua compilação An Afro-Portuguese Odissey. Até à edição do seu terceiro álbum, Lôpe Kai, em 2006, Eneida registou mais uma série de participações em compilações e trabalhos de outros artistas, construindo, a pulso, o seu caminho, singular e distinto, reconhecido com a obtenção de um primeiro lugar num concurso de World Music com o tema “Mindjer Dôlce Mel” que a Putumayo haveria de incluir na compilação Acoustic Africa.

Já em 2008, a Womex seleccionou Eneida Marta para se apresentar em showcase perante mais de 3 mil delegados, momento especial de que resultou uma aplaudida digressão internacional. O álbum seguinte viu Eneida Marta a assumir a música de Angola como uma inspiração: Eneida Marta Com Angola na Voz viu-a a abordar a música de grandes nomes da canção angolana como Teta Lando ou os Kiezos, referências de uma infância passada em Bissau onde se escutava muito a música produzida em Angola.

Este percurso trouxe Eneida até ao presente, levando-a a cruzar muitos palcos, de Madrid e Barcelona a Amesterdão ou Vancouver, de Roma a Budapeste e Cidade do México, de Boston a Londres e Berna. E em todos, o mesmo aplauso emocionado de quem encontra uma voz carregada de alma, de sonhos, de dor e de alegria.

Eneida é uma mulher especial, de causas, de força. E é assim que se apresenta no presente, com um sonho. Gravado entre Bissau, Lisboa e Paris, o novo álbum de Eneida Marta conta com a sua própria produção, facto que ajuda a explicar o título (Nha Sunhu): “Eu tinha o sonho de produzir um trabalho meu, queria experimentar algumas ideias que fui solidificando ao longo dos anos. Este álbum é o resultado disso, dessa sede de independência”, explica a cantora. Acompanhada por músicos como o pianista Ernesto Leite (de Portugal), o flautista Dramane Dembelé (do Congo), o baixista Gogui ou o guitarrista Manecas Costa (ambos da Guiné), Eneida Marta assina um trabalho de extraordinária beleza e complexidade onde também participa os Netos de Bandim, grupo de percussões tradicionais da Guiné: “eu quis incluir a energia e autenticidade da música africana”, justifica Eneida Marta. Os textos resultam de uma selecção de trabalhos de alguns dos mais destacados poetas guineenses, excepção feita a “Nha Principe”, que a própria Eneida Marta escreveu. “A minha música é guineense”, afirma, sem margem para dúvidas, Eneida Marta que explica como o cantor do Congo Lokua Kanza lhe disse um dia “não conheço o teu país, mas sinto que o compreendo por causa da tua música”.

Buscando as melodias na própria identidade da Guiné e cruzando o género local Gumbé com o jazz, Eneida Marta construiu um som próprio que tem como referências nomes clássicos da música guineense como, entre outros, José Carlos Shewarz, Ernesto Dabo ou Zé Manel. “Curiosamente”, diz Eneida Marta, “não me inspiro muito em mulheres, em cantoras. Em casa ouço homens como Marc Anthony, Lokua Kanza, Andrea Bocelli, Zé Manel ou Manecas Costa”. Talvez isso explique que a voz que realmente marca Eneida Marta seja a sua voz interior, a que a faz cantar a vida, o amor, em letras de poetas que, como ela explica, “deixam sempre algo para decifrar”.

Ao vivo, Eneida Marta será acompanhada por um quarteto acústico com piano/guitarra, kora, percussão e baixo e com esse formato, a cantora pretende revistar temas do seu repertório com novos arranjos. “Curiosamente”, adianta, “estar a tocar as minhas canções com menos instrumentos fez-me redescobrir a minha própria música”. Eneida é uma cantora especial, enfim, porque é uma pessoa especial. Embaixadora da Unicef para o seu país, Eneida confessa-se uma mulher de causas e não tem problemas em explicar que a sua real missão “é trabalhar com as crianças. A música”, prossegue, “é um veículo que Deus criou para que eu conseguisse fazer o que mais quero, que é ajudar os outros”. Não será mesmo nada fácil ficar longe de Eneida Marta e do seu sonho…

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