TRAVIS BIRDS

Travis Birds. Fixem este nome. A cantora madrilena poderá bem revelar-se a nova obsessão coletiva dos que buscam música sem fronteiras, sem classificativos fáceis, visceral, autêntica e apaixonante. A cantora, nascida em 1990, tem tudo isso. E são essas qualidades que justificam que os produtores do êxito televisivo La Casa de Papel tenham escolhido “Coyotes“, um tema que lançou já em 2019, para o genérico de El Embarcadero, nova série televisiva que promete também dar que falar.

Para lá de “Coyotes”, este ano Travis Birds já lançou “Madre Conciencia”, reforçando assim a sua aura: música que mistura uma dimensão cinemática (e se pensarem em Almodóvar isso é mais do que natural) com flamenco, pop moderna e uma rugosidade que tem tanto de Tom Waits como de PJ Harvey.

Travis Birds estreou-se em 2016 com Año X, estreou-se ao vivo no Café Berlin, recolheu espanto e aplausos, despertou paixões e fez correr tinta e agora, já em 2019, vai levantando o véu do seu novo álbum, La Costa de Los Mosquitos, com música tremenda, feroz, que fala de obsessões que soa tão familiar quanto original. Ouçam-na e certamente não vão esquecer o nome: Travis Birds.

Benjamin Francis Leftwich

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O The Guardian descreve After The Rain, o mais recente trabalho de Benjamin Francis Leftwich, como “uma coisa delicada, preciosa e estranhamente reconfortante”. São palavras certeiras, a que a publicação britânica de referência dedica ao segundo álbum do cantautor criado no cenário campestre de Yorkshire e agora baseado na zona de Tottenham, em Londres. Um fenómeno improvável do Spotify? Talvez, mas a verdade é que este jovem de 27 anos tem mais de dois milhões de pessoas a escutarem mensalmente as suas delicadas canções nessa plataforma de streaming.

A carreira de Benjamin Francis Leftwich tem um claro “antes e depois”. O álbum de estreia, Last Smoke Before the Snowstorm, editado em 2011, mereceu amplos elogios da imprensa especializada, que vê nele uma espécie de novo José Gonzalez, e alimentou uma digressão de que a sua imagem saiu firmada: um sério compositor, capaz de encantar com as suas palavras e melodias, com a sua voz e a sua guitarra. Mas depois o mundo desabou: o pai de Benjamin ficou seriamente doente, sucumbindo a um cancro que o artista viu desenvolver-se de muito perto. After The Rain é o resultado desse intenso processo de dor e cura. Benjamin quase abandonou a música, viajou para se reencontrar, foi até à Austrália em busca do conforto da família. E acabou por reencontrar a música.

After The Rain é o som de Benjamin a encontrar paz dentro de si uma vez mais. Apesar de estar formalmente perto da folk, Benjamin não é alheio a influências exteriores e confessa admiração pelo hip hop e por artistas como Drake, usa electrónica na base de algumas das suas criações, como a extraordinária “Mayflies”. Extraordinária, aliás, é toda a sua música que em palco parece ganhar uma vida ainda mais incrível e densa, puxando quem a ouve para dentro de um dos mais intrigantes universos pessoais gerados pelos cantautores contemporâneos. Vê-lo será, certamente, revelação para muitos.

Peter Broderick

Peter Broderick - press photo by Joshua Rain_01_landscape_PRINTMembro dos aplaudidos Efterklang e dono de uma carreira a solo de referência no universo da mais avançada música contemporânea, Peter Broderick, músico, compositor, cantor, é um dos mais reverenciados artistas da actualidade no seu campo.

“Partners”, o seu mais recente álbum editado em 2017 pela Erased Tapes,  uma colecção de canções que nasceu de uma paixão de Peter Broderick pela obra de um dos mais importantes e celebrados compositores do século XX., John Cage, e a peça “In A Landscape” foram os catalisadores para uma reaproximação de Broderick ao piano e essa influência marcou a abordagem a “Partners”, um conjunto de canções moldadas pelo acaso dos dados.

Peter, como John Cage, foi insuflando acaso e imprevisibilidade nas suas canções deixando decisões de direcção artística à responsabilidade de um rodar de dados. O resultado é uma apaixonante obra para piano e voz.

Dom La Nena

DOM LA NENA – “SOYO”
por Marcelo Camelo
Dom é exemplo raro das contradições que carregamos. Uma menina doce de rosto franco e olhos determinados, que compõe com frescor germinal as canções que ainda queremos ouvir, canções sobre os sentimentos que nos são tão verdadeiros que as vezes escapam desapercebidos entre as luzes e presenças de apelo mais cintilante. Canções de leveza feminina, de olhar indireto, dos assuntos que se enredam no silêncio.
Tudo parece fazer os olhos correrem no mesmo sentido até ela se sentar ao pé do violoncelo e começar a arrumar-se pra tocar. As luzes diminuem, as cores se intensificam, as paredes se ajeitam, tudo vai tomando outra forma e o ar entre nós e ela se adensa. Seu rosto fica sério de um jeito a conseguir anunciar o que vem. Mas é quando o seu arco encosta nas cordas do violoncelo que você tem verdadeiramente o outro espectro de Dom em estado bruto. Pelo som que ele causa mas também pelo que o som causa nela.
As dualidades se entrelaçam, se enamoram, se confudem e transformam. Não somos capazes de isolar características nossas umas das outras. A compositora encontra a violoncelista que encontra a menina. Todas se tocam. Transformam-se mutuamente em cena criando uma visão destas que pode fazer parar o tempo.
E um tempo parado parece mesmo o apropriado pra ouvir o que ela tem a nos dizer. Uma história não daquilo que é absurdo e excepcional, mas daquilo que encontra seu caminho na sombra dos grandes acontecimentos. A verdade perene escondida injustamente dos menos sensíveis por alguma explosão oportunista. São nossas pequenas saudades, pequenos desencontros, as ausências que nos fazem mais humanos e mais reais.
Dei-me aos seus versos como se fossem meus, com carinho e identificação com ela e suas histórias. Fazíamos graça ao descobrir o samba ou algum dos seus desdobramentos em quase todas as músicas, logo ela gaúcha, crescida em Buenos Aires e residente em Paris. Fazendo ecoar ranchos e rodas de Jacarepaguá, meu bairro de infância no subúrbio carioca.
Fizemos isso no estúdio do meu compadre, com a presença do importante Jérôme, companheiro de Dom e muso dos seus feitiços. Embalados por um carinho mútuo e um volume de trabalho que fez as horas parecerem minutos.
Assim como eu, naqueles dias de inverno todos em volta deste projeto sentiram-se envolvidos pela beleza das canções e pela fluidez com que elas decorrem. Todos se encantaram com Dom e seu mundo e eu me senti honrado e agradecido por estar dentro dele por um breve momento. Testemunhar as suas transformações e a sua alegria viva, poder dançar imaginariamente o samba que está em tudo que é bom, me fez também mais feliz.

SCOTT MATTHEW

A relação de Scott Matthew com o nosso país iniciou-se da melhor forma: é dele a voz que se ouve no belíssimo «Terrible Dawn», um dos momentos centrais d’ A Montanha Mágica, e também em «Incomplete», tema inédito de Songs, um trabalho de Rodrigo Leão.

Este cantor, nascido na Austrália mas presentemente a residir em Nova Iorque, tem uma voz muito característica: frágil e misteriosa, forte e funda, de um tempo que não parece este, mas que no entanto está mesmo de pés fincados no presente. Gallantry’s Favorite Son, lançado em 2011, songwriting luminoso tingido de folk, pintado de cores acústicas e embalado em melodias de uma beleza tocante.

Mas Gallantry’s Favorite Son é apenas a ponta do iceberg – ou talvez seja a boca do vulcão – uma vez que a discografia de Scott Matthew se estende por outros registos: There Is an Ocean That Divides and With My Longing I Can Charge It With a Voltage That’s So Violent to Cross It Coul Mean Death, álbum de 2009 com um título tão longo como a sua própria beleza; o homónimo Scott Matthew de 2008; e há o resultado de um encontro com Eric D. Clark que foi lançado em 2008 tal como aliás um single de Natal com uma belíssima versão de «Silent Night». Scott tem, como se perceberá, muitas canções. Tem igualmente muitas palavras arrebatadas a ele dedicadas: a Rolling Stone comparou-o a Anthony Hegarty e nas revistas por onde a sua música vai passando os adjetivos não param de se amontoar: «espantoso», «incrível», «hipnótico» são apenas algumas das palavras usadas para o tentar descrever.

Scott já fez muito: esteve numa banda de nome Elva Snow com Spencer Cobrin, um músico que trabalhou com Morrissey, foi punk e é um nome de culto para os mais devotos fãs de anime uma vez que a sua voz adorna algumas das passagens das bandas sonoras de obras como Ghost in The Shell ou Cowboy Bebop. A música e a voz de Matthew têm aliás revelado um incrível potencial cinemático: há seis das suas canções na banda sonora de um outro filme de culto, Shortbus, o que poderá ter ajudado a que se mudasse para os Estados Unidos. Mas agora, de barba crescida, prefere expor a sua alma em canções tocantes, singulares e de uma beleza absolutamente tocante que dispensam todas as imagens menos as que se formam na nossa cabeça. O seu último álbum This Here Defeat, lançado em 2015, apresenta 10 canções de novas profundezas emocionais, canções que ao vivo se transformam em quadros vívidos de melodias e palavras fundas que tocam sempre o público de uma forma inequívoca.