RODRIGO LEÃO & SCOTT MATTHEW

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LIFE IS LONG – editado em Portugal e Espanha pela Universal Music e no resto da Europa pela Glitterhouse Records.

Um compositor português com os olhos postos no mundo, um cantor australiano residente em Nova Iorque, cada um deles com uma aclamada carreira internacional.

Nada faria esperar que estes dois percursos se cruzassem, mas a atracção parecia estar lá antes ainda de se encontrarem.

De um lado, Rodrigo Leão, com um percurso ecléctico e abrangente como poucos ao longo de 30 anos de carreira – figura chave da geração do rock português dos anos 1980 com os Sétima Legião e integrante dos Madredeus, compositor aberto aos desafios da clássica contemporânea, da new music e da banda-sonora. Do outro, Scott Matthew, cantor e compositor de talentos revelados pela magia do cinema e com nome feito no circuito independente/alternativo.

Um encontro improvável, certamente, mas é desses encontros improváveis que nascem os momentos mais mágicos. A música de Rodrigo sempre ascendeu a outros níveis com o contributo de vozes de primeira água como Teresa Salgueiro, Beth Gibbons, Rosa Passos, Stuart Staples ou Neil Hannon. Scott enquadrava-se na perfeição nessa linhagem de cantores/compositores, e Rodrigo convidou-o para o seu álbum de 2011 A Montanha Mágica. O encontro prolongou-se para uma outra colaboração em Songs, e provou ser determinante para a criação de uma cumplicidade, de uma amizade de longo curso e longo prazo.

Desde o primeiro encontro, em 2011, a dupla tem sossegadamente vindo a trocar ideias, emoções, canções, pelo meio de carreiras que os têm levado aos quatro cantos do mundo. Pelo meio, Rodrigo experimentou com a electrónica e com a música para instalações artísticas, e gravou para a Deutsche Grammophon um trabalho com orquestra; e Scott lançou dois novos álbuns de material original. Agora, podemos finalmente ver os resultados desses anos de correspondência: um álbum inteiro assinado em parceria. Life Is Long, lançado em Setembro pela Universal Music, é a história de um encontro improvável que provou ser inevitável, entre um compositor conhecido pelas suas melodias enlevadas e uma voz que as leva ao patamar superior de magia. A magia que nasce quando dois artistas se juntam para irem mais longe do que conseguiriam separados – e é isso que faz da dúzia de temas de Life is Long pequenas jóias, que o tornam num álbum de uma beleza discreta mas arrebatadora, que fica muito para lá do seu final. Um disco que só poderia ver desta parceria mágica formada por Rodrigo Leão e Scott Matthew.

Benjamin Francis Leftwich

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O The Guardian descreve After The Rain, o mais recente trabalho de Benjamin Francis Leftwich, como “uma coisa delicada, preciosa e estranhamente reconfortante”. São palavras certeiras, a que a publicação britânica de referência dedica ao segundo álbum do cantautor criado no cenário campestre de Yorkshire e agora baseado na zona de Tottenham, em Londres. Um fenómeno improvável do Spotify? Talvez, mas a verdade é que este jovem de 27 anos tem mais de dois milhões de pessoas a escutarem mensalmente as suas delicadas canções nessa plataforma de streaming.

A carreira de Benjamin Francis Leftwich tem um claro “antes e depois”. O álbum de estreia, Last Smoke Before the Snowstorm, editado em 2011, mereceu amplos elogios da imprensa especializada, que vê nele uma espécie de novo José Gonzalez, e alimentou uma digressão de que a sua imagem saiu firmada: um sério compositor, capaz de encantar com as suas palavras e melodias, com a sua voz e a sua guitarra. Mas depois o mundo desabou: o pai de Benjamin ficou seriamente doente, sucumbindo a um cancro que o artista viu desenvolver-se de muito perto. After The Rain é o resultado desse intenso processo de dor e cura. Benjamin quase abandonou a música, viajou para se reencontrar, foi até à Austrália em busca do conforto da família. E acabou por reencontrar a música.

After The Rain é o som de Benjamin a encontrar paz dentro de si uma vez mais. Apesar de estar formalmente perto da folk, Benjamin não é alheio a influências exteriores e confessa admiração pelo hip hop e por artistas como Drake, usa electrónica na base de algumas das suas criações, como a extraordinária “Mayflies”. Extraordinária, aliás, é toda a sua música que em palco parece ganhar uma vida ainda mais incrível e densa, puxando quem a ouve para dentro de um dos mais intrigantes universos pessoais gerados pelos cantautores contemporâneos. Vê-lo será, certamente, revelação para muitos.

SCOTT MATTHEW

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A relação de Scott Matthew com o nosso país iniciou-se da melhor forma: é dele a voz que se ouve no belíssimo «Terrible Dawn», um dos momentos centrais d’ A Montanha Mágica, e também em «Incomplete», tema inédito de Songs, um trabalho de Rodrigo Leão.

Este cantor, nascido na Austrália mas presentemente a residir em Nova Iorque, tem uma voz muito característica: frágil e misteriosa, forte e funda, de um tempo que não parece este, mas que no entanto está mesmo de pés fincados no presente. Gallantry’s Favorite Son, lançado em 2011, songwriting luminoso tingido de folk, pintado de cores acústicas e embalado em melodias de uma beleza tocante.

Mas Gallantry’s Favorite Son é apenas a ponta do iceberg – ou talvez seja a boca do vulcão – uma vez que a discografia de Scott Matthew se estende por outros registos: There Is an Ocean That Divides and With My Longing I Can Charge It With a Voltage That’s So Violent to Cross It Coul Mean Death, álbum de 2009 com um título tão longo como a sua própria beleza; o homónimo Scott Matthew de 2008; e há o resultado de um encontro com Eric D. Clark que foi lançado em 2008 tal como aliás um single de Natal com uma belíssima versão de «Silent Night». Scott tem, como se perceberá, muitas canções. Tem igualmente muitas palavras arrebatadas a ele dedicadas: a Rolling Stone comparou-o a Anthony Hegarty e nas revistas por onde a sua música vai passando os adjetivos não param de se amontoar: «espantoso», «incrível», «hipnótico» são apenas algumas das palavras usadas para o tentar descrever.

Scott já fez muito: esteve numa banda de nome Elva Snow com Spencer Cobrin, um músico que trabalhou com Morrissey, foi punk e é um nome de culto para os mais devotos fãs de anime uma vez que a sua voz adorna algumas das passagens das bandas sonoras de obras como Ghost in The Shell ou Cowboy Bebop. A música e a voz de Matthew têm aliás revelado um incrível potencial cinemático: há seis das suas canções na banda sonora de um outro filme de culto, Shortbus, o que poderá ter ajudado a que se mudasse para os Estados Unidos. Mas agora, de barba crescida, prefere expor a sua alma em canções tocantes, singulares e de uma beleza absolutamente tocante que dispensam todas as imagens menos as que se formam na nossa cabeça. O seu último álbum This Here Defeat, lançado em 2015, apresenta 10 canções de novas profundezas emocionais, canções que ao vivo se transformam em quadros vívidos de melodias e palavras fundas que tocam sempre o público de uma forma inequívoca.

JOAN AS POLICE WOMAN

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“Uma voz tão maravilhosa e tocante que faz todas as outras parecerem vulgares e mundanas”. In The Guardian

Os elogios rasgados de publicações como o Times, a Uncut ou a Q, onde palavras como “sublime”, “devastador” ou “sofisticação” tentam dar a correcta dimensão da música de Joan as Police Woman, são apenas algumas gotas num oceano de aplausos que esta senhora não se tem cansado de receber. A culpa, claro, é da brilhante música que produz. Joan, no entanto, e de uma forma mais poética, é bem capaz de fazer melhor do que aquelas publicações quando se trata de descrever a sua própria música. Diz ela que a sua maior influência é a vida e que a sua música soa como “o vento que atravessa a floresta.”

Artistas assim não aparecem todos os dias e, no entanto, ela aí está: Joan As Police Woman, também conhecida por Joan Wasser, uma mulher com um currículo impressionante. Tocou com Lou Reed no fabuloso «The Raven», foi recrutada por Hal Willner para a banda de suporte da sua homenagem a Leonard Cohen, esteve na formação de Anthony & The Johnsons, faz parte do grupo de Rufus Wainwright e, antes que o fôlego acabe, também tocou com Nick Cave. Joan também adicionou gasolina ao fogo das suas próprias bandas, como os Dambuilders, Black Beetle ou Those Bastard Souls. Mais ainda: foi para ela que Jeff Buckley escreveu «Everybody Here Wants You». Ela era a companheira de Buckley à altura da sua morte e a sua musa. Na casa dos 30, Joan parece já ter vivido o suficiente para várias vidas e a sua música manifesta exactamente isso, deixando mais clara a ideia do vento e da floresta e de como a vida pode realmente marcar um artista.

Editou «Real Life» em 2006, a sua estreia a solo, e o aplauso foi unânime, muito por causa de uma voz que convida a que surjam comparações a Dusty Springfield e Chrissie Hynde e Annette Peacock. «Já lhe chamei R&B Punk Rock, mas American Soul Music é melhor. Sinto que a minha música é o resultado da junção dos dois estilos de que mais gosto: Soul, aquele género que engloba desde Al Green a Nina Simone e Isaac Hayes, e depois tudo aquilo que veio do Punk – os Smiths, os Grifters, a Siouxsie Sioux.»

Joan cresceu como pessoa e músico graças à proximidade de um clube de punk, o Anthrax, onde viu os Sonic Youth, os Black Flag e os Bad Brains. «They all blew my mind», garante ela. Tudo isso deu-lhe vontade de ser ela própria uma participante activa no mundo da música e o seu violino depressa se juntou à barragem de electricidade debitada por bandas como os Those Bastard Souls (que incluía o frontman dos Grifters, David Shouse, Joan, Steve Drozd dos Flaming Lips e Fred Armisen dos Trenchmouth). Os Black Beetle, por seu lado, incluíam músicos da banda de suporte de Jeff Buckley. “Fui tentando fazer da minha música uma prioridade, mas sempre gostei de tocar nas bandas de outras pessoas.”

Violinista desde os seis anos, Joan depressa percebeu que o seu caminho não estava na música clássica: «Beethoven já foi interpretado milhões de vezes, eu não iria fazê-lo melhor.» Esta determinação e capacidade de vocalizar as suas opiniões talvez estejam ligadas ao facto de ter surgido ao lado de Barack Obama numa angariação de fundos. Esse interesse na política está manifestado no álbum, «To Survive», escrito depois do falecimento da sua mãe. Com um nome artístico inspirado numa série de TV dos anos 70 com Angie Dickinson, Joan Wasser tem certamente uma história, um lugar especial para a memória e música profundamente apaixonante para embalar toda a sua experiência que ao vivo tem arrancado os mais rasgados elogios à crítica. Diz ela: “A raiva é tão fácil e eu senti-me zangada durante tanto tempo. Mas a raiva apenas nasce de sentimentos com que te recusas a lidar. E eu tenho tentado ir mais fundo.” Ao vivo, essa gestão de sentimentos – verdadeiros, honestos, profundos – é o verdadeiro cenário da sua música. É normal as pessoas saírem sem fôlego de um dos seus concertos. Porque as canções de Joan as Police Woman são rajadas de sentimentos que todos atingem. Directamente no coração. “Porque eu não lido com a necessidade de sobreviver todos os dias, ter que matar para comer ou tentar não enregelar até à morte, a minha música é sobre amor e perda. Para lá disso é sobre tentar ser verdadeira comigo própria, depois de muito tempo a tentar fugir de mim mesma.”