Birds On A Wire : Misty Fest

A cantora e violoncelista brasileira Dom La Nena e a cantora franco-americana Rosemary Standley (leader da banda de rock Moriarty) juntaram se em 2012 com o nome de Birds on a Wire, com o objetivo de realizar um songbook de canções que as acompanham desde a infância.

Como dois pássaros sobre um fio, voz e violoncelo, o duo explora com grande fineza e delicadeza um repertorio eclético, que nos faz viajar de Claudio Monteverdi a Leonard Cohen, passando por Violeta Parra, John Lennon, Giberto Gil ou Tom Waits.

Após mais de 100 espetáculos com salas constantemente esgotadas e um disco com mais de 25 000 unidades vendidas, o duo apresenta-se em Portugal pela primeira vez. Só poderia ser no Misty Fest!

Andrea Motis  : Misty Fest

O espantoso em Andrea Motis é que apesar da sua tenra idade – a trompetista e cantora de Barcelona soma apenas 23 anos – ela já conta com um álbum em nome próprio na prestigiada etiqueta Impulse! – Emotional Dance foi editado, perante aclamação generalizada, em 2017 -, variadíssimas colaborações com o seu mentor, o baixista Joan Chamorro, o primeiro dos quais, Joan Chamorro presenta Andrea Motis, quando contava meros 15 anos de idade. A esse registo somam-se mais uma dezena (!!!) em colaboração com o seu mentor ou com o colectivo Sant Andreu Jazz Band, uma marca impressionante de um talento fora do comum que logo em 2007, quando Andrea tinha apenas 12 anos, se começou a manifestar em palcos de forma muito séria.

No seu período formativo, Motis, que também é uma executante sólida no saxofone alto, tocou trompete – que considera o seu primeiro instrumento, ao lado de grandes nomes do jazz mundial como o trombonista Wycliffe Gordon, os saxofonistas Jesse Davis e Dick Oatts ou o clarinetista Bobby Gordon. “Tocar trompete”, explica, revelando uma sabedoria bem mais ampla do que a sua idade deixaria antever, “é como meditar. É parte importante da minha vida. Mas não quero apenas escolher um lado, porque gosto de tudo”, confessa, referindo-se ao facto de ao lado de Chamorro ter igualmente descoberto a sua voz como instrumento.

Naquele que é já o seu segundo registo para a Impulse!, Emotional Dance, a sua voz ocupa um espaço de eleição. Comparada tanto a Billlie Holiday como a Norah Jones, Andrea Motis revela uma voz alto, com fraseado sucinto, mas imaginativo, bem expresso logo no tema de abertura, o standard “He’s Funny That Way”. A propósito deste álbum, John Fordham escreveu no Guardian que Motis tem aparência de grande estrela desde a adolescência e descreve o resultado final como “uma sessão que nos prende”. Será igualmente assim em palco, num concerto em que a jovem Andrea Motis poderá mostrar que o talento e a capacidade de encantar não precisa do peso dos anos para se manifestar.

Anna Von Hausswolff : Misty Fest

Pode argumentar-se que os tons noturnos da música de Anna von Hausswolff são condizentes com um presente que, pelo menos do ponto de vista dos grandes media, não é o mais animador com conflitos em vários pontos do mundo e ameaças globais de vária ordem a imporem ao mundo o peso de uma sombria realidade.

Dead Magic, o mais recente e aclamado trabalho da artista sueca, nascida em Gotemburgo, tem carimbo editorial da prestigiada etiqueta City Slang e conta com produção de Randall Dunn, colaborador habitual dos mais notórios embaixadores do chamado drone metal, os aclamados Sun0))). Apoiando-se sobretudo nas texturas solenes e algo fúnebres do orgão, instrumento cuja sonoridade tanto o tornou em essencial recurso para os compositores que assinaram requiems como para os autores de bandas sonoras que escreveram peças para filmes de terror, Anna von Hausswolff conta ainda com a sua voz de soprano, que já lhe valeu comparações a Kate Bush, como uma das mais distintivas marcas da sua arte.

Com canções longas e profundas, Anna von Hausswolff parece explorar, em disco como em palco, os mais obscuros recantos da alma humana. O britânico The Guardian descreveu o mais recente trabalho de von Hausswolff como o mais negro e profundo da sua carreira e como “um ópus ambicioso”. Escutá-la ao vivo é uma das mais arrebatadoras experiências que a música contemporânea pode proporcionar.

Harlem Gospel Choir : sings Their Best Hits

Pelo décimo ano consecutivo, o Harlem Gospel Choir troca Nova Iorque por Portugal para nos oferecer um Natal diferente, igualmente espiritual, festivo e capaz de unir toda a família em torno de algumas das mais celebradas canções do mundo.

O Harlem Gospel Choir, talvez o mais famoso grupo de gospel do mundo neste momento, já trouxe a Portugal espetáculos de homenagem a gigantes da música como Michael Jackson, Stevie Wonder ou Whitney Houston, Adele ou Beyoncé, compositores e interpretes de méritos mais do que reconhecidos que nas experientes vozes deste grupo se tornam também autores de hinos universais capazes de capturar o espírito de uma época muito especial.

Desta vez, o Harlem Gospel Choir propõe ao seu fiel público e a quem os queira agora descobrir uma viagem pelos maiores êxitos da sua muito celebrada carreira. Este grupo, que já cantou ao lado de ou para gente tão importante como Nelson Mandela, o papa João Paulo II, Paul McCartney, Diana Ross, U2 ou Gorilaaz, entre tantos outros, tem quase três décadas de história, percurso relevante que lhes permitiu colecionar muitos sucessos que agora se traduzem num envolvente espetáculo, capaz de elevar os espíritos e de inundar de paz qualquer plateia.

O convite é para uma celebração muito especial e dirige-se a toda a família. A banda sonora, essa será de luxo e entregue com o inimitável estilo do Harlem Gospel Choir.

EGBERTO GISMONTI

Quando se estreou ao vivo em Nova Iorque, para actuar ao lado de Naná Vasconcelos na primeira parte de um concerto de John Fahey, outro mestre da guitarra desaparecido em 1978, Egberto Gismonti recolheu rasgados e plenamente justificados elogios do New York Times. O prestigiado jornalista Robert Palmer explicava então que a música de Gismonti “desafiava a categorização”. Hoje, 40 anos depois, o músico que então apresentava o extraordinário Dança das Cabeças (edição de 1977 da ECM) continua a ser um inquieto explorador das possibilidades universais da música, recusando-se a reconhecer fronteiras entre linguagens, eras, continentes. Até entre instrumentos, tratando a guitarra e o piano, entre outros, da mesma maneira, com a mesma intensidade e criatividade.

 

Ao vivo e a solo na Casa da Música, no Porto e no Casino Estoril, Egberto Gismonti oferece ao seu fiel público a rara oportunidade de assistir a um recital íntimo que recorre a uma carreira que se estende por cinco décadas e que se manifesta em dezenas de trabalhos originais e de importantes colaborações, uma carreira que foi bastas vezes distinguida com os mais exclusivos prémios e que nunca abandonou o terreno da invenção. Sempre preocupado em expandir as suas possibilidades como músico, Egberto Gismonti desenhou novos e fabulosos instrumentos, porque a única maneira de executar a música que imaginava era, precisamente, traduzindo os objectos desse pensamento para a realidade. Tudo isto ganhará vida em palco neste seu especial regresso a Portugal.

ORQUESTRA JAZZ DO PORTO: BIG BAND CLASSICS

A Orquestra Jazz do Porto convida-vos a realizar uma viagem ao início do século XX. Apresentámos um concerto comentado em que iremos interpretar temas clássicos outrora intepretados pelas mais famosas Big Bands de sempre.

No nosso concerto apresentaremos um reportório em que não faltarão temas de Buddy Rich, Glenn Miller, Benny Goodman, Thad Jones, Count Basie, Duke Ellington e muitos outros.

É caso para dizer que será uma autêntica viagem ao tempo dos anos dourados do swing.

AVISHAI COHEN : MISTY FEST

Avishai Cohen é uma das maiores referências contemporâneas no contrabaixo de jazz. O músico, compositor e vocalista israelita chegou a Nova Iorque – o centro do universo jazz – no arranque dos anos 90 e, enquanto estudava na prestigiada New School for Jazz and Contemporary Music tocou na rua para sobreviver até conseguir entrar no disputado circuito de clubes. A mudança na carreira chegou com um telefonema do grande pianista Chick Corea: em 1996, Cohen foi um dos fundadores do colectivo Origin, liderado por Corea. Foi aliás na etiqueta Stretch, do próprio Chick Corea, que Avishai Cohen lançou os seus primeiros quatro registos como líder. Avishai manteve-se nos projectos de Corea até 2003, quando decidiu começar o seu próprio trio e a sua editora, a Razdaz Recordz, operação que já soma praticamente duas dezenas de lançamentos, incluindo vários do própio Avishai Cohen.

From Darkness é o mais recente título na discografia do trio de Avishai Cohen, trabalho apontado como mais um extraordinário capítulo na sua busca pela pureza. Mas em 2017 o artista lançou em nome próprio 1970, trabalho que mereceu igualmente rasgados elogios por parte da imprensa internacional especializada. Não é de espantar por isso mesmo que o The Jerusalem Post descreva Avishai Cohen como “a mais bem sucedida exportação jazz do país”, o que vai ao encontro do que a revista de referência Down Beat refere em relação ao músico: “um visionário jazz de proporções globais”. Já o seu antigo “patrão”, Chick Corea, aponta-o como “um grande compositor” e “um músico de génio”. Marcas de peso que o cantor e contrabaixista carrega consigo para o palco com um trio que o Guardian sublinha ser “fabulosamente realizado”. Em Portugal, Avishai Cohen vai apresentar-se ao lado de Noam David na bateria e Elchin Shirinov no piano, dois sólidos músicos de classe mundial.

SCOTT MATTHEW : MISTY FEST

Scott Matthew, cantor australiano há duas décadas a viver   em Nova Iorque, descobriu nos últimos anos uma espécie de segunda casa em Portugal, mercê da sua parceria com Rodrigo Leão que além de um par de momentos isolados na discografia do compositor português rendeu ainda o álbum Life is Long, de 2016, e várias e importantes apresentações ao vivo.

 

Ode to Others é o novo álbum com que Scott Matthew pretende não apenas fincar os pés em 2018, mas também perspectivar o futuro a partir de uma outra atitude de vida e de criação artística: “É o primeiro álbum que escrevo que não se prende com o amor romântico. Apesar de haver um certo ar de romance no disco, não está ligado de forma alguma ao meu amor romântico pessoal. É acerca de pessoas e de lugares que não se relacionam com a minha dor romântica mais imediata”, esclarece o cantor.

 

No álbum anterior, This Here Defeat, de 2015, eram as pequenas misérias do amor, as grandes dores pessoais, que alimentavam a escrita de Scott Matthew, mas em Ode to Others algo de importante se altera: “Decidi escrever canções sobre outros assuntos. Odes para pessoas que eu amo ou admiro, pessoas até inventadas – e lugares que trago no coração. Isso foi revigorante para mim!”.

 

Há uma canção para o seu pai, “Where I Come From”, outra para o seu tio, “Cease and Desist”, para o seu parceiro, Michael, “Not Just Another Year”, uma celabração de um aniversário que já não se repetirá já que a relação terminou. E há também os caminhos que foi trilhando, desde a sua Austrália natal – presente na versão de “Flame Trees”, tema original dos australianos Cold Chisel – os passeios de duas décadas pela Grande Maçã em “The Sidewalks of New York” e até há ecos nos poemas das impressões recolhidas ao caminhar pelo lado mais histórico de Santarém, onde Scott se recolheu nalgumas das suas visitas a Portugal.

 

E há muito mais: a sua sentida homenagem às vítimas do massacre de Orlando, em 2016, membros da comunidade LGBT que foram abatidos a tiro num clube e que inspiraram as comoventes palavras de “The Wish” ou a ideia de que perante uma realidade como a que foi imposta por Donald Trump só a resistência importa, como a que ele canta em “The End of Days”. A dor continua, pois claro, a levantar questões, mas há uma leveza na sua versão do clássico “Do You Really Want to Hurt Me”, tema dos Culture Club que é também símbolo de toda uma geração que cresceu na década de 80.

 

Com a ajuda de Jurgen Stark, o guitarrista que normalmente o acompanha ao vivo, Ode to Others não explora apenas novo terreno em termos poéticos, também se atreve a reinventar coordenadas em termos musicais que, explica o próprio Scott, troca o minimalismo de registos anteriores por canções que são mais expansivas em termos melódicos e harmónicos.

 

E, claro, tudo isto tem igualmente tradução em palco, com Scott Matthew e uma banda especial que se divide entre guitarra, teclados, ukelele ou violoncelo a desenharem o espaço perfeito para todas estas histórias, sobre pessoas, lugares e situações carregadas de humanidade, de amor, claro, de sentimentos a que todos se podem ligar. Interprete e compositor de mão cheia, dono de uma voz funda e singular, Scott Matthew entrega-nos esta Ode to Others com o requinte que só os grandes artistas conseguem, mesmo aqueles que se decidem a olhar para fora, em vez de para dentro. Além do novo álbum, o cantor que tem sabido dar voz a clássicos como o já citado “Do You Really Want to Hurt Me” ou “I Wanna Dance With Somebody”, este de Whitney Houston, promete revisitar os principais momentos da sua discografia que se estende já por meia dúzia de álbuns, incluindo Life is Long que assinou em 2016 juntamente com Rodrigo Leão

CLASSIC WAVES : RUI MASSENA | PETER SANDBERG

Ciclo de concertos duplos, focados no universo musical que actualmente é internacionalmente designado como “Post Classical”, “Neo Classical”, “Modern Classical” ou mesmo “Indie Classical”. Neste género, os compositores contemporâneos usam o piano como elemento central, mas a música de influência clássica envolve-se com sonoridades que tocam a electrónica, a new age ou a música progressiva.

Rui Massena

 

Rui Massena é um nome incontornável no panorama cultural presente, dono de uma obra de seriedade inquestionável, facto que justifica que tenha visto uma das suas peças seleccionadas para a antologia Expo 1 da Deutsche Grammophon que incluiu trabalhos de outros importantes estetas da modernidade clássica como Hauschka, Philip Glass ou Ludovico Einaudi. A editora alemã é referência máxima no universo da música erudita e com Expo 1 procurou documentar um facto impossível de ignorar: numa era de transformações tecnológicas, de mudança de paradigmas de pensamento é perfeitamente natural que os próprios conceitos musicais se alterem, que evoluam, acomodando novos pensamentos e perspectivas.

Para a sua apresentação no âmbito do programa Classic Waves, Rui Massena propõe por isso um novo conceito, uma nova direcção que identifica como Post Classical. Partindo de Solo e Ensemble, os seus dois aplaudidos registos em nome próprio que o firmaram como compositor depois de um reputadíssimo percurso como maestro, Rui Massena repensa as próprias noções de erudição e classicismo num trabalho altamente pessoal e evoluído que reflecte toda a sua experiência acumulada mas, sobretudo até, uma corajosa abertura a possibilidades futuras, a novos caminhos, algo só possível num artista que não teme novos desafios e que está sempre em busca do amanhã que também se pode encontrar dentro de um piano.

 

Peter Sandberg

A carreira que Peter Sandberg projectou a partir da Suécia é hoje, pode dizer-se, global. As suas rigorosas composições contemporâneas partem da tradição clássica e colocam o seu piano no centro de uma paisagem musical poderosamente evocativa, talvez inspirada pela particular paisagem nórdica: funda, misteriosa, cativante e exótica para quem a partir do sul imagina um norte mágico e distante.

Criador de inúmeras peças para cinema e televisão, Peter Sandberg é um prolífico compositor, capaz de trabalhar a orquestra – e sobretudo as cordas – com ideias de uma beleza insuperável, o que ajuda a explicar que as suas obras já somem mais de 100 milhões de plays na plataforma Spotify. Em Portugal, num concerto integrado no ciclo Classic Waves, Sandberg apresentar-se-á ao piano, mostrando-nos algumas das suas mais delicadas peças, capazes de sustentar um imaginário narrativo, quase como se as suas composições nos fossem, através de notas e cadências, de silêncios e melodias, contando histórias que nos prendem.

 

CLASSIC WAVES : RODRIGO LEÃO | HAUSCHKA

Ciclo de concertos duplos, focados no universo musical que actualmente é internacionalmente designado como “Post Classical”, “Neo Classical”, “Modern Classical” ou mesmo “Indie Classical”. Neste género, os compositores contemporâneos usam o piano como elemento central, mas a música de influência clássica envolve-se com sonoridades que tocam a electrónica, a new age ou a música progressiva.

Rodrigo Leão: como nunca o ouvimos

Todos achamos que conhecemos Rodrigo Leão. Afinal, são vinte e cinco anos de carreira a solo, assinalados em 2018, para além do passado colectivo com os Sétima Legião e Madredeus. E no entanto se existe alguém que tem conseguido reinventar-se ao longo do tempo é ele. Já andou pela pop, minimalismo, electrónicas, música contemporânea, clássica, bandas-sonoras (Do filme O Mordomo à série documental Portugal – Um Retrato Social) ou colaborações (da Orquestra Gulbenkian a Scott Mathews) e, no fim de contas, nunca deixou de ser ele próprio.

Já correu mundo, mas apetece ter a sua música só para nós. Já gravou com orquestras e coros monumentais, mas também compôs para embalar as primeiras palavras de um dos filhos e dedicou um álbum à mãe. É discreto mas não se assusta em convocar grandes nomes para gravarem com ele (Beth Gibbons, Stuart Staples, Neil Hannon, Adriana Calcanhoto). E acima de tudo, apesar da diversidade e qualidade do seu percurso, continua a inquietar-se e, nesse movimento, desafiando também o público.

Este ano ele vai dar os últimos concertos da digressão conjunta com o cantor-compositor Scott Matthew, ao mesmo tempo que terá uma versão revista do espectáculo Os Portugueses, mas no Classic Waves apresentará um outro conceito de concerto. Trata-se de Instrumental – O Ensaio, com forte componente de projecções vídeo e focado integralmente em composições instrumentais, sendo assistido por um Ensemble de cinco músicos.

Como sempre nele, será um espectáculo com algo de familiar – ou não tivesse uma identidade e sonoridade reconhecível – e de particular, porque haverá novas composições em que tem trabalhado nos últimos tempos e que serão reveladas em versões integralmente instrumentais. Será um concerto em que teremos a oportunidade, em primeira mão, de ouvir uma série de novos temas, em versões irrepetíveis, que farão parte de um novo álbum de originais, que será lançado até ao final do corrente ano.

Vinte e cinco anos depois do lançamento do álbum Ave Mundi Luminar (1993), Rodrigo Leão celebra a sua carreira, ao mesmo tempo que mostra o que virá aí para os anos vindouros e o Tivoli, em Lisboa, vai ter oportunidade de o testemunhar em estreia.

 

Hauschka: o mestre do piano ilusionista

Parem por uns momentos. Detenham-se no silêncio. Agora imaginem alguém a tocar piano. Depois oiçam o alemão Volker Bertelmann, mais conhecido por Hauschka, e nunca mais conseguirão imaginar o som de um piano da mesma maneira.

Ao longo de oito álbuns distribuídos por uma dúzia de anos, o alemão tornou-se no mestre do piano preparado. Para gravar o seu último álbum, What If (2017), combinou velhas e novas tecnologias. O resultado é talvez o seu álbum mais rico e imersivo. Conhecido sobretudo pelos intimistas concertos a solo, é também um dos mais originais orquestradores contemporâneos, nunca de deixando aprisionar pelas fórmulas académicas. A sua música é hipnótica, circunferências de harmonias irresistíveis, que tanto funcionam quando se faz acompanhar de um colectivo de músicos, ou na presente versão, solitariamente. Nas suas mãos o piano parece uma máquina de fazer todas as músicas possíveis, clássica, de câmara, electrónica, minimal ou ambiental.

Como os outros músicos convocados para o ciclo Classic Waves é alguém que se move por entre vários territórios, sendo dos mais sérios representantes da tendência neoclássica ou pós-clássica, conseguindo tocar um público transgeracional, alguns mais próximos da música clássica e outros mais sensíveis às linguagens populares da pop, rock ou electrónica. A feitura de bandas-sonoras para cinema ou TV é outra das suas facetas, tendo composto para inúmeros filmes, com destaque para Lion – A Longa Estrada para Cada, trabalho que lhe valeu uma nomeação (na companhia de Dustin O’ Halloran dos A Winged Victory For The Sullen) para os Óscares do ano passado.

Nos seus espectáculos a música, a iluminação e a concepção lúdica do cenário contribuem para o mesmo efeito, fazendo viajar o ouvinte, enquanto ele se entrega ao piano, por vezes seguindo um guião pré-definido, outras vezes entregando-se ao deleite do improviso. Por vezes toca as notas do piano, outras as cordas do piano, extraindo daí uma sonoridade que consegue ser percussiva ou indefinível, fazendo o ouvinte duvidar do que ouve: guitarras? Cítaras? Não, apenas o piano.

Como se não bastasse é um excelente comunicador, mostrando que a experimentação e a inteligibilidade, a erudição e a capacidade de projectar universalidade, podem caminhar a par.

Nas noites Classic Waves não só é possível, como é desejável.