Rui Massena

Apetece dizer, sem presunção e com provas à vista, que Rui Massena é um coleccionador de surpresas. E que o processo aplicado corresponde a um constante auto-desafio, em que o instinto supera a lógica mas não dispensa a técnica, os saberes, as vivências acumuladas. Intimidade e “área reservada” à parte, Massena repudia também o egoísmo, uma vez que o seu trabalho continuado e as suas presenças públicas podem facilmente apontar a uma orientação amiúde esquecida por muitos outros: a necessidade suprema de comunicar. Fazendo-o, invariavelmente, com o entusiasmo de quem faz o que quer e sabe o que faz. Talvez por isso o vejamos sempre empolgado, quer lhe caiba uma nacionalmente inédita tarefa de direcção no mítico Carnegie Hall nova-iorquino (foi o primeiro português a reger uma orquestra, o New England Symphonic Ensemble, naquela sala de pergaminhos, em 2007) ou orientar aventuras de aproximação ecuménica entre estilos, ormações e escolas musicais, como sucedeu com as colaborações orquestrais que assumiu com grupos pop como os Da Weasel ou os Expensive Soul.

Nascido no Porto, em 1972, Massena chegou cedo à música, apontando a uma formação académica que nunca deixou grandes dúvidas sobre o seu destino: licenciou-se em Direcção de Orquestra na classe do Maestro Jean-Marc Burfin, pela Academia Nacional Superior de Orquestra de Lisboa. Percebe-se bem que tenha ganho um impressionante “nome próprio” para juntar aos de nascimento: Maestro. Capaz de desenvolver e notabilizar projectos de médio e longo prazo, como o da Orquestra Clássica da Madeira, de que foi director artístico e Maestro titular durante o período 2000-2012, tendo, na mesma Região Autónoma ocupado a direcção pedagógica e a presidência do Conservatório de Música local; mas, em paralelo, assumindo a missão de construir pontes entre as diferentes músicas e entre os seus segmentos mais eruditos e o grande público, ao dar a voz, a cara e a alma a um projecto televisivo (na RTP) chamado Música, Maestro!, série que deixou marca e que, ainda por cima, lançou sementes para outros projectos de convergência e de aprendizagem, sem esforço mas com mestre. Chegou inclusivamente a conquistar o estatuto de finalista na categoria de Artes do festival televisivo Rosa de Ouro, em Berlim (2014).

Os anos mais chegados ajudaram-nos a fixar a imagem (desalinhado e intempestivo só mesmo o seu penteado) e a multiplicidade de recursos deste homem que, por exemplo, deitou mãos à obra para, com êxito assinalável, fundar, moldar, dirigir e projectar a Fundação Orquestra Estúdio que, ao longo de 2012 e da vigência de Guimarães como Capital Europeia da Cultura, surgiu sempre como um dos seus pólos mais dinâmicos e mais interventivos, como ponta de lança de toda a desdobrada e multidisciplinar iniciativa. Junte-se a esta dimensão de continuidade, o apelo feito a Rui Massena para intervenções mais institucionais, como aquela que o levou ao papel de Comissário Nacional para as comemorações do 40º aniversário do 25 de Abril (recordada pelo próprio Maestro como “um exercicio da liberdade de expressão, na escolha de peças musicais que ao longo de quatro décadas marcaram a mudança de mentalidades”), e tornar-se-á mais fácil compreender o longo percurso palmilhado pelo rapaz que, ainda hoje, atribui grande importância ao ambiente de liberdade em que cresceu e não poupa elogios à escola que lhe guiou os primeiros passos – a academia de Vilar do Paraíso, em Vila Nova de Gaia, cidade que orgulhosamente lhe entregou a Medalha de Ouro de Mérito Cultural e Científico do município. As distinções saltaram fronteiras: em 2013, a Academia de Artes e Ciências do Brasil atribuiu a Massena a Medalha de Mérito Cultural.

Nada disto, ainda que a soma seja avassaladora e deva ainda ser acrescentada, no capítulo da notoriedade com a sua presença entre o júri fixo do programa Got Talent Portugal, estreado na RTP, nos prepara cabalmente para o novo capítulo que Rui Massena faz questão de escrever e apresentar publicamente. Chama-se Solo, este grande salto em frente: Rui Massena troca o escudo de uma orquestra pela refrescante solidão de um piano (apenas pontualmente acompanhado pelo violino de Gaspar Santos). Deixa repousar as composições a que sempre injectou vida e distinção para expor o que lhe ditam as mãos de compositor, a prevalecer pela primeira vez sobre a voz de terceiros. Em 15 momentos, nada menos do que isso, Rui Massena aparece numa nova dimensão, mais completa e mais pessoal – da simbólica evocação do dia “D”, que assinalou o desembarque das tropas aliadas na Normandia, durante a II Guerra Mundial, ao amor pelo seu clube (o Futebol Clube de Porto), as inspirações são tão distintas como intensas. Um nevão, uma janela, uma inércia, uma musa, um futuro português, uma família – tudo se integra, de forma harmoniosa, num disco que, já se disse, surpreende. Que volta a dar razão a Mário Laginha, pianista de primeira água, que disse um dia que Rui Massena “é um dos poucos Maestros que não tem medo de arriscar”. Com Solo, vale a pena ir mais longe: Rui Massena não tem medo de ser feliz. E de nos fazer felizes a todos, com estas apaixonantes bandas sonoras para os filmes que havemos de fazer.

- João Gobern -
Janeiro de 2015

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