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Pedro Moutinho"Encontro"
O Fado, diz-se, aprende-se a cantar vivendo, vivendo Lisboa, vivendo a memória do Fado que percorre cada viela de Alfama ou da Mouraria, cada rua do Bairro Alto, absorvendo essa indefinível e irresumível vibração que emana da luz, da vida, da noite de Lisboa. Uma Lisboa que, no século XXI, pode já não ser a mesma cidade portuária de marinheiros e varinas imortalizada no imaginário do Faro, mas não deixa por isso de ser uma mesma Lisboa noctívaga e nocturna, onde as emoções correm à flor da pele e o Fado continua presente e bem presente. Só que de outras e novas maneiras, cantado por outras vozes que o vêem e o sentem de acordo com as suas vivências. Voz para quem o Fado não é uma tradição imutável, mas sim um corpo em constante movimento, que se adapta aos novos tempos sem perder aquilo que o torna na canção de Lisboa. Pedro Moutinho é uma dessas vozes. Revelado em disco em 2003 com o álbum "Primeiro Fado", prémio revelação da Casa da Imprensa, Pedro Moutinho tem o Fado nas veias. Os seus irmãos são duas outras figuras importantes das novas gerações fadistas - Camané e Hélder Moutinho - e, tal como eles, Pedro, actualmente com 29 anos, aprendeu a cantar o Fado vivendo-o no dia a dia desde os 11 anos de idade. Toda essa experiência - as muitas noites e madrugadas em casas de fado ou nas Quartas de Fado do Casino Estoril, a passagem pelo Quinteto de Fados de Lisboa, os muitos concertos em Portugal e no estrangeiro - culmina agora no seu segundo álbum. Um disco que prova como a modernidade e a tradição não são incompatíveis, antes complementares, e que revela uma nova segurança na voz de Pedro Moutinho, desenhando a evolução da sua abordagem ao Fado. "Encontro" é aquilo que o seu título nos diz: um encontro entre o classicismo do fado e a inovação da leitura que uma das melhores vozes da nova geração de fadistas dele faz. Nove fados tradicionais - como o Alexandrino, o Isabel, o Alvito, o Súplica ou o José Marques do Amaral - são maioritariamente apresentados aqui com letras inéditas escolhidas a dedo por Pedro Moutinho, pertencentes a poetas clássicos como António Botto ou Fernando Pessoa, contemporâneos como Manuel Alegre ou António Lobo Antunes, ou colegas como Aldina Duarte. A eles juntam-se dois clássicos, "Não Me Conformo" e "A Rua do Desencanto", que, em conjunto, desenham um olhar atento à tradição, apostado em revelar a sua relevância para estes dias em que muitos procuram uma inovação externa ao Fado para lhe desenhar novas rotas. Pedro Moutinho sabe que, pelo contrário, é no rigor e no respeito pela tradição que as mudanças se começam a desenhar; que só depois de se conhecer o que se fez antes se pode querer ousar algo de novo. Por isso, "Encontro" é um álbum que revela precisamente esse rigor e esse respeito - e que, ao fazê-lo, abre a porta para tornar a tradição sua, para lhe inserir as nuances e os estilares nascidos da sua própria experiência enquanto fadista e estudante do Fado. Com a ajuda preciosa do guitarrista José Manuel Neto, do violista Carlos Manuel Proença (igualmente produtor e director musical do álbum) e do viola baixo Daniel Pinto, Pedro Moutinho desenha neste seu segundo registo um "Encontro" entre o passado e o presente do Fado. Por vezes, é desses encontros que nasce o futuro. Ainda é cedo para o saber - mas não é cedo demais para reconhecer o talento de um dos melhores jovens fadistas portugueses. Afinal, como ele próprio canta, "Lisboa mora aqui / Na rua do meu fado / Nos becos do meu peito (...) Lisboa mora em mim / Ninguém diga que não!". Setembro 2006
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