Misia – Pura Vida – 2021 Tour Portugal

PURA VIDA – O PROJETO

SENTIMENTOS E VONTADES
Depois de viver dois anos que foram – pelos piores motivos – uma aprendizagem vital de decisiva importância, sou a mesma, mas sou diferente.
De facto, tudo mudou.
Também e sobretudo o meu trabalho, que sou eu – não há fronteiras.
Eis aqui a banda sonora deste período, onde há céu e inferno, dureza e paixão. Fados de amarga saudade, músicas de coração e osso, rosas negras, ausência, lágrimas e renascimento. 
As músicas de Pura Vida (banda sonora) são pura música, puras notas musicais totalmente livres de regras, porque já não preciso pertencer a nenhum género ou tribo depois do que vivi. 
Não consigo nem quero banalizar isto.
Penso que o Fado não é alegre nem triste, é a Vida, o Destino. 
Só uma música com esta nobreza permite usar as suas melodias mais simbólicas como um pintor usa as cores primárias para dizer com elas tudo o que a sua alma precisa. 
Por isso digo que neste álbum há músicas de fados, mas não é um disco de Fado.
Pura Vida (banda sonora), está cheio de brechas, de rugosidades, e às vezes um pouco de “seda, veludo e lã”.
A guitarra portuguesa é o Céu e a guitarra eléctrica o Inferno. 
O sentimento trágico, é transmitido neste trabalho, através da guitarra eléctrica.
Não se trata, pois, de ser “pop ou moderno”, pelo contrário.
Ouso dizer que há uma beleza cinematográfica nos arranjos de Fabrizio Romano.
Não é este um disco para anestesiar o público. É um disco que procura o “outro”, o eco na fragilidade e incapacidade que todos nós já alguma vez sentimos.
O místico Rumi disse que a ferida é o lugar por onde a luz entra.
Neste caso trata-se de pedir que ouçam a diferença. A beleza, a força e a humildade que a passagem por um calvário nos pode trazer. A ânsia de um caminho possível através das palavras de Miguel Torga, Tiago Torres da Silva e Vasco Graça Moura, entre outros. 
E por fim, a vontade de viver e de cantar sem medo de mostrar as cicatrizes. 

Mísia, 

Fevereiro 2019 

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Mísia, sabe-o bem, que a pura vida acontece quando esta se deixa contaminar pelas emoções, pelas ideias e pelas vivências. A pura vida carrega as marcas – as visíveis e as invisíveis – de quem nela se atravessa. É isso que Mísia canta, com alma de quem bem sabe com quantas mágoas se tece um xaile negro. Esta fadista soube amar Amália e muitas outras vozes, de poetas e marujos, de compositores e músicos, que com ela ergueram um singular percurso e repertório de mais de 25 anos de entrega a palcos e estúdios, apontando tantas vezes caminhos e espaços que o fado não conhecia, mas que ela se atreveu a trilhar porque sentia que tinha que ser. Porque sentia.  

Em Pura Vida Mísia volta a cantar o fado, que não é triste, nem alegre, como gosta de dizer. É Destino. Volta a cantar os sentimentos e emoções com a sua grandeza e miséria em igual medida. Com os fados escolhidos para Pura Vida, Mísia pretende cantar o léxico e a gramática das emoções: o Amor e o Beijo, a Cidade, o Destino e a Esquina, a Felicidade, o Grito, o Mar e a Saudade, pois claro, o tudo e o quase nada. A vida, em estado puro. “E outras letras do abecedário”, garante ela. Tudo isto recorrendo a fados clássicos e a alguns inéditos, porque a vida, a pura vida, faz-se de certezas, obviamente, mas também de surpresas.  

 A palavras de Miguel Torga, Vasco Graça Moura, Tiago Torres da Silva e outros. A algumas músicas em castelhano que fazem parte da sua vida, do seu ADN. Companheiro essencial neste trabalho, o músico napolitano Fabrizio Romano que co-produz o trabalho com Mísia e que é ainda o director musical e responsável por quase todos os arranjos (exceto: Rosa Negra no Meu Peito II – Paulo Gaspar, Lágrima – Raul Refree e Ouso Dizer – Luís Guerreiro e Fabrizio Romano). Convidados nesta aventura vital são o artista argentino Melingo, o fadista Ricardo Ribeiro, o jovem guitarrista Gaspar Varela e o músico catalão Raul Refree. Porque a vida, a pura vida, faz-se de certezas, obviamente, mas também de surpresas. 

Nancy Vieira – Manhã Florida – 2021Tour Portugal

Manhã Florida – O projeto

Nancy Vieira é uma das mais reputadas artistas a explorarem no presente o imenso património musical de Cabo Verde que, no caso específico da morna, mereceu até distinção recente da Unesco como Património Imaterial da Humanidade. E em palco, Nancy é uma das grandes defensoras desse património estando habituada a apresentá-lo um pouco por todo o mundo: “Eu conheço a morna desde os meus 6 ou 7 anos de idade”, diz-nos. “Sempre cantei os clássicos. E por isso, na véspera de um concerto, posso lembrar-me de um tema antigo que depois no espetáculo desafio os meus músicos a interpretarem comigo”.

Em palco, Nancy gosta de se fazer acompanhar pelos seus músicos habituais, mas também gosta de receber convidados, por vezes até surpresas inesperadas: “Gosto de ter ao meu lado não apenas vozes de que gosto muito e com quem tenho trabalhado ao longo dos anos, mas também alguns músicos que admiro. Gosto sempre de ter surpresas nos concertos”, admite a artista cabo-verdiana. A sua música que fala das viagens e o do mar, da saudade e da distância, vive de diferentes balanços, algo que confere sempre uma dinâmica especial aos seus concertos para que leva sempre mornas e funanás, coladeiras e mais música que se espraia pelo oceano e pelo mundo. A artista, que reside em Portugal, estreou-se em 1995, mas começou por dar nas vistas em 1999, quando surgiu numa compilação de título Música de Intervenção Cabo-Verdiana cantando ao lado do lendário Ildo Lobo. Lançou depois os trabalhos Segred (Praça Nova, 2004), Lus (Harmonia Mundi/World Village, 2007), Pássaro Cego (Arthouse, 2009), com Manuel Paulo, ou Nô Amá (Lusafrica, 2012). E foi já em 2018 apresentou o muito aplaudido Manhã Florida (uma vez mais com selo Lusafrica). Atualmente, Nancy prepara um novo trabalho, acrescentando novas canções a um reportório de excelência.

Nancy Vieira Convida Fred Martins – 2021 Tour Portugal

nancy vieira Convida fred martins – O projeto

O balanço das águas, que viaja nas ondas, facilmente atravessa o oceano e vai do Brasil até Cabo Verde e vice-versa. Nancy Vieira e Fred Martins sabem bem disso. A primeira é um autêntico tesouro vivo das ilhas que nos deram a morna e o funaná, a coladera e tanto mais, voz de um crioulo tão universal quanto doce, tão sensual quanto moderno, que gravou nos últimos anos alguns dos mais importantes discos da cultura que a Unesco agora reconhece como Património Imaterial da Humanidade, casos de Manhã Florida ou No Amá. E Fred Martins é outro tesouro, este do lado de lá do oceano, compositor, violonista premiado, aplaudido por público e crítica, respeitado pelos seus pares.

Juntos, Nancy e Fred começaram por gravar, nesta Lisboa que a tantos une, “O Samba Me Diz”, unidos pelo produtor Paulo Borges. Foi essa a canção que também interpretaram juntos num especial televisivo, A Música é Meu País, que a RTP 1 exibiu recentemente. E nesse balanço doce do samba em que Nancy e Fred se encontraram nasceu uma cumplicidade que agora se prepara para se traduzir em concerto, um dueto íntimo de dois talentos gigantes que pegam na bossa e em ritmos de cabo Verde e dão-lhes novas nuances, novos sotaques, novas doçuras. Música de qualidade extrema, de sinceridade total, capaz de agarrar corpos e corações, executada por dois artistas que são tão genuínos quanto universais. Não podia ser melhor.

Os Poetas – Entre Nós E As Palavras – 2021 Tour Portugal

Entre nós e as palavras – o projeto

O projeto “OS POETAS” surgiu de encontros entre Rodrigo Leão, Gabriel Gomes e Hermínio Monteiro, então editor da Assírio & Alvim, em cujo espólio existiam gravações de poetas a dizerem os próprios poemas.   

“Entre Nós e as Palavras”, de 1997, foi o resultado de meses intensos de composição, de uma afinidade com os poetas escolhidos e da amizade cúmplice entre os dois músicos, que se nota muito quando compõem e quando atuam. Com Francisco Ribeiro (ex-Madredeus) e Margarida Araújo nas cordas, o ensemble fez alguns concertos ainda nos anos 90.   

 Em 2013, Os Poetas” regressam com a reedição deste álbum há muito esgotado. Durante o ano de 2012, compuseram novas músicas e reformularam o espetáculo, projetando os textos e chamando o ator Miguel Borges para dizer os poemas de Mário Cesarinny, Herberto Helder, Luísa Neto Jorge e Adília Lopes. . Viviena Tupikova e Sandra Martins vieram completar o ensemble. A escolha de Miguel Borges para dar voz aos textos prendeu-se novamente com sentimentos de cumplicidade e de empatia.   

Não é este um concerto para eruditos ou específicos leitores e amantes de poesia. Sendo a palavra importantíssima, e ponto de partida para a composição – ela é o comandante deste “Navio de Espelhos” – a música não é um mero suporte, pois acaba por se fundir com os poemas. À música falada mistura-se a performance, resultando num espetáculo único e encantatório. 

Pedro Joia – 2021 Tour Portugal

Pedro Joia Tour 2021/2022 – o projeto

“Este disco [Zeca, editado em 2020 pela Sony Music] é uma homenagem muito afectiva de um guitarrista português à dimensão que a obra musical de José Afonso tem na cultura popular nacional passados mais de trinta anos sobre o seu desaparecimento.

A força das canções de José Afonso não se esgota nas suas palavras. A sua música é a um tempo simples, directa e de uma intensidade pungente.

São aqui apresentadas versões para guitarra – o instrumento que Zeca usava para compor a sua música e para se acompanhar.

Tenho ainda o privilégio de embarcar nesta viagem musical com o meu querido amigo e grande percussionista José Salgueiro.”
Pedro Joia

Rao Kyao- Aventuras da Alma – Tour Portugal

Rão Kyao Tour 2021/2022 – O projeto

Rão Kyao é um verdadeiro embaixador da alma portuguesa nos mais importantes palcos globais. Editou mundialmente este ano o álbum Gandhi, uma homenagem ao símbolo universal da paz, que lhe merece uma reverente vénia. Em dezembro de 2021, este novo projeto, em que volta a dialogar com outras culturas musicais, terá uma digressão associada.

Rão nasceu em Lisboa, começou a estudar saxofone com o mestre Vítor Santos e flauta de bambu como autodidata. Ainda adolescente começou a frequentar o Hot Clube e a sua aproximação ao jazz levou-o a ser convidado para atuar em vários festivais Cascais Jazz durante os anos 70. Nessa altura viveu em Paris durante um ano e alguns meses e fez parte de um grupo de música africana liderado pelo trompetista nigeriano Ray Stephen Oche, tendo atuado nesse período com vários músicos franceses e americanos.  No final dessa década, gravou os seus primeiros trabalhos discográficos, Malpertuis (EMI, 1976) e Bambu (EMI, 1977), e nessa época foi convidado para atuar numa orquestra de jazz internacional liderada pelo trompetista Clark Terry no Festival Jazz Yatra em Bombaím. Aí ficou durante longos meses a estudar flauta de bambu e música indiana com o mestre flautista Pandit Ragunath Seth e durante esse tempo participou na gravação de música de vários filmes do chamado Bollywood. Regressado a Lisboa, gravou o disco Goa (EMI, 1079), a celebrar a sua ligação com a música indiana aprofundada pelo estudo na cidade de Bombaím. 

O percurso que construiu para si desde então foi extraordinário. Em 1983, por exemplo, Rão começou uma colaboração com a editora Universal e lançou aquele que é ainda um dos maiores sucessos da sua carreira, o clássico Fado Bailado (Universal, 1983), um dos primeiros trabalhos em que o fado foi abordado por um músico com uma instrumentação diferente, mas interior, fresca e inventiva. Foi o primeiro álbum português a ver as suas significativas vendas traduzirem-se no galardão de platina! Os anos seguintes mantiveram-se alinhados com os favores do público que fez de trabalhos como Estrada da Luz (Universal, 1984) ou Oásis (Universal, 1985), registos em que trabalhou com a nata dos músicos portugueses, sustentando digressões longas e muito aplaudidas.

Trabalhou igualmente com várias figuras musicais internacionais de relevância, como Sivuca ou Marcos Resende, no Brasil, no álbum Danças de Rua (Universal, 1987), além de se ter apresentado com a   Orquestra Chinesa de Macau com quem gravou o álbum Junção (União Lisboa, 1999), cujo tema “Integração” foi interpretado por Rão e pela Orquestra na cerimónia de passagem de soberania de Macau para a China, em Macau no final de 1999. Gravou o memorável Delírios Ibéricos (Universal, 1991) com os espanhóis Ketama, referências maiores no flamenco em Espanha. Foi também durante esta década que se afirmou como um verdadeiro mestre da flauta de bambu, instrumento que tomou como a sua principal ferramenta de expressão artística.

E ao longo desse caminho, Rão Kyao afirmou-se como o mais universal dos músicos portugueses, construindo não apenas uma discografia repleta desses momentos de diálogo com artistas internacionais, trazendo efetivamente o mundo para Portugal, mas levando também Portugal para o mundo, ao tomar o fado, hoje património imaterial da humanidade, como uma das mais vincadas inspirações da sua música.

Os últimos 20 anos foram igualmente recheados de conquistas. Dilatou a sua discografia com trabalhos que voltaram a recolher elogios da crítica e favores do público: Fado Virado a Nascente (Universal, 2001), produzido por Mário Barreiros, foi gravado com músicos marroquinos e com as vozes da fadista Deolinda Bernardo e de Teresa Salgueiro, a conhecida vocalista do grupo Madredeus. Pedro Ayres Magalhães, também dos Madredeus, foi coprodutor e autor de uma das letras desse álbum. Seguiram-se Porto Alto (UGURU, 2004), com o virtuoso guitarrista de Flamenco Gerardo Núñez e com a participação do cantor/guitarrista Tito Paris e Em’Cantado (Universal, 2009) com grandes artistas e vozes do Fado portuguesas como Carminho, Camané, Ricardo Ribeiro, Tânia Oleiro e Manuela Cavaco. Destaque ainda para Coisas Que a Gente Sente (Get!Records, 2012) em que dedica o tema “Ouvindo Cesária” à lendária cantora de Cabo Verde Cesária Évora. O seu último registo de originais data de 2017: Aventuras da Alma (Ampla, 2017) é um trabalho repleto de magia, com uma visão plena da natureza, que explora a elevação do espírito pela música.

Paralelamente, em 2011, inaugurou um projeto de música litúrgica de autores portugueses intitulado “Sopro de Vida” para além de ter desenvolvido uma atividade musical ligada ao nada yoga que quer dizer yoga do som, período esse em que gravou os CDs Samadhi, com o percussionista Ruca Rebordão, e Heart and Wings, com uma sonoridade dedicada à trance dance, com André Sousa Machado e João Ferreira na bateria e percussões, respetivamente.

Ainda nestas duas últimas décadas, viajou pelo mundo, arrebatou audiências e conquistou prémios e honrarias de topo, como a Ordem do Infante D. Henrique, a ele atribuída em 2007 pelo Presidente da República, ou a comenda da Academia das Artes e Ciências de Paris, em 2011, atribuída pelo estado francês

Todos estes marcos fazem da carreira de Rão Kyao uma das mais ricas e extensas da música portuguesa: Rão vê o mundo como poucos, dialoga com muitas culturas, de África ao Brasil, da China à Índia, da América a Espanha, procurando sempre usar a alma portuguesa que tão bem traduz com o seu sopro singular como ponte para a aproximação com outros povos, outras línguas e outras experiências. Nenhum outro músico português o faz desta forma, com esta intensidade e com tamanho reconhecimento.

Rão Kyao – Fado Maior – 2021 Tour portugal

FADO MAIOR – O PROJETO

Desde o princípio da sua carreira de instrumentista que Rão Kyao tem posto ênfase na íntima ligação entre a flauta de bambu, seu instrumento eleito e a voz humana.
Esta ligação vai ao ponto de ele afirmar que sente o som da mesma flauta como uma voz, encarando a sua interpretação como estando, na realidade, a cantar.
O seu estudo da música clássica indiana, praticado na própria Índia e por todo o lado, desde há anos atrás, só veio reforçar esta ligação.

Amante desde criança do nosso fado, iniciou a sua homenagem a esta canção desde os anos oitenta com o disco de grande sucesso Fado Bailado, nos anos noventa com a gravação de uma atuação ao vivo (Viva o Fado) e já neste milénio, com os CDs Fado Virado a Nascente e Em Cantado. São muitas as composições de Rão Kyao ligadas a este nosso sentir que se traduzem em músicas interpretadas com a guitarra portuguesa, a guitarra clássica e com restantes instrumentos executados pelos elementos do seu grupo.

Fado Maior apresenta vários temas do fado tradicional, originais, todos eles imbuídos de uma improvisação tão típica desta nossa tradição e tão querida e motivante na linguagem musical do Rão Kyao que assim se expressa, de maneira sempre diferente e espontânea nas várias “Vozes” das suas flautas.

 

Rão Kyao – Gandhi – 2021 Tour Portugal

Gandhi – O Projeto

Rão Kyao tem um novo álbum e Gandhi está nele 

Igual e diferente. É assim Rão Kyao em 2021. Inalterável porque a matriz identitária da sua arte é singular, perene, apenas dele próprio. Renovado porque existem novos elementos a adicionar ao que dele já se conhecia. Em março foi lançado o single “Respeito Pela Natureza”. Agora aí está o álbum Gandhi – Um Português Homenageia Gandhi que mostra um ser humano ambientalista, ligado à espiritualidade e um humanista, capaz de reconhecer o legado futurista, global e pacifista do líder indiano Mahatma Gandhi (1986-1948). Mas há também um músico, um compositor e flautista na posse de todos os seus recursos, que propõe uma música que respira tanto de universalidade como de portugalidade.
É um álbum temático, orgânico, feito para ser experienciado em casa ou ao vivo, que tanto pode agradar aos admiradores fiéis, como abrir portas para uma nova geração que se revê na música e valores que difunde. Em “Respeito Pela Natureza” apela-se ao sentido ecológico de Gandhi, enquanto “Deus é Amor”, é uma reflexão mística que culmina com aquela frase que nos unifica. Em “Regresso às origens” apela-se à autossuficiência e ao espírito de independência e em “Paz é o caminho” recorda-se, como dizia Gandhi, que “não há caminhos para a paz’. A paz é o caminho.”
 O tema “Misericórdia” alude ao ponto fundamental da sua sabedoria religiosa, enquanto “Sathya Graha”, dá ênfase à filosofia do amor e da não-violência que sempre guiaram Gandhi e que acabaria por conduzir ao afastamento dos ingleses. Um dia o líder Martin Luther King afirmou: “Cristo é a mensagem. Gandhi é o método.”
Em “Marcha do Sal” evoca-se a caminhada até às salinas, organizada por Gandhi, e que juntou uma multidão em prol do direito ao sal, enquanto que o tema “Independência” refere-se ao ano de libertação, em 1947. “Vaishnav jan to tene Kahiye je” é um tema muito amado por Gandhi, sobre as opções da humanidade, tendo-se tornado ao longo dos anos num hino que todos conhecem na Índia.
O tema final, “Mahatma”, na sua tradução literal significa Grande Alma, sobrenome atribuído a Gandhi pelo povo indiano.
Se do ponto de vista temático é uma obra que respira globalidade, do ponto de vista musical faz-nos viajar até ao Oriente sem que em nenhum momento saiamos das texturas, da identidade e também dos ritmos de Portugal, com influências tão diversas, do malhão ao fado, numa viagem que é, afinal, ao nosso interior. Música pacificadora, mas ativa e encantatória, como o saber de Gandhi.
“Ele criou uma nova mentalidade nos indianos, um orgulho benigno em relação às suas origens”, refere Rão Kyao, “que os preparou para respeitar e perceber a riqueza da sua tradição. Não só fizeram o certo ao nível da relação com o passado, como recuperaram a independência económica e depois política em relação aos ingleses. Daí um tema como “Regresso às origens”. Ao mesmo tempo é notável como ele semeou a paz, no meio da luta, não respondendo à agressão, mas de uma maneira ativa, promovendo sempre a igualdade entre todos os seres humanos. O seu pensamento é de uma atualidade inimaginável. Sendo que dois dos seus grandes seguidores foram Martin Luther King e Nelson Mandela.”
 Em Gandhi – Um Português Homenageia Gandhi, também existe uma mensagem, a do próprio Rão Kyao, a partir do saber de Gandhi: “É preciso que regressemos às origens, olhando para o que é universal, sem esquecer as especificidades e aquilo que nos distingue. Isso ilustra a minha postura em relação à música.”
Uma música que, em palco, recorre à prestação de cinco dotados executantes para ser melhor exposta. 
“O álbum foi totalmente gravado “sem quaisquer aditivos”, a pensar na sua apresentação ao vivo. É um disco que conta a história de um homem que através da paz ganhou a guerra. E essa história merece ser contada, ao vivo, musicalmente às pessoas.” 
 Recorde-se que o projeto começou como um desafio. As entidades oficiais da Índia lançaram um convite a 124 países para cada um deles escolher um músico que recriasse a canção “Vaishnav Jan to Tene Kahiye”. “Foi então que a embaixada da Índia me convidou para conceber uma versão desse tema, a partir do facto de conhecerem a minha ligação com a música indiana”, afirma Rão Kyao, que depois de ter finalizado a recriação, obteve uma reação imediata que não deixou de ser inesperada por parte do Primeiro Ministro da Índia, Narendra Modi, que o referenciou em todas as suas redes sociais.
Daí até que Rão Kyao mergulhasse, ainda mais fundo, na atualidade do pensamento de Gandhi, para conceber todo um álbum, foi um instante.
 Eis-nos então perante mais um álbum de alguém que partiu do jazz  e daí atirou-se ao mundo, do Oriente a África, da Europa às Américas, munido de flautas de bambu. Um embaixador da alma portuguesa. Uma longa carreira com muitos discos, imensos encontros e colaborações, muitas aprendizagens e inspirações, que o tornam no mais universal dos músicos portugueses. Nos últimos tempos nunca parou de recolher os elogios da crítica e os aplausos do público com trabalhos como Fado Virado a Nascente (2001), Porto Alto (2004) ou Coisas Que a Gente Sente (2012) e Aventuras da Alma (2017), sempre em trânsito pelo mundo.  Agora ei-lo de volta, com grande música inspirada na vida e obra de Gandhi. 

Rodrigo Leão Cinema Project

Rodrigo Leão cinema project

A ESTRANHA BELEZA DA VIDA  – O PROJETO

A Estranha Beleza da Vida é o título do novo álbum de Rodrigo Leão e tem data de edição marcada para outubro de 2021. Um novo trabalho que marcará igualmente o regresso do com- positor aos palcos internacionais.
“Friend of a Friend”, com voz e letra da cantora-compositora canadiana Michelle Gurevich é o primeiro single.
Ao longo do seu percurso, Rodrigo tem composto e pensado alguns dos seus álbuns como se de filmes se tratassem, uma história que se quer contar. A partir daí, tal como num filme, trata-se de fazer o casting certo de vozes para cada personagem que assume um papel nesta narrativa. Complementado com ambientes sonoros e música, Rodrigo realiza a montagem final que dá a cada disco uma abrangência musical diversa, ditada pela história de cada “filme”. Foi este o caminho seguido em álbuns como Alma Mater, Cinema ou A Mãe, e é nessa linhagem que A Estranha Beleza da Vida se inscreve. Trabalhos em que os convidados são as personagens que integram a história, como aconteceu com Adriana Calcanhoto, Beth Gibbons, Ryuichi Sakamoto ou Neil Hannon. Em comum, mais do que um estilo musical, estes discos partilham a ideia de pensar um álbum como se fosse um filme, assumindo o cinema como estilo transversal a todos os projectos. A Estranha Beleza da Vida começou a tomar forma no final do ano. “Comecei a pensar neste trabalho em Outubro de 2020, o mês em que regressei a Lisboa depois de meses de confinamento no meio do campo. Senti diferença logo nos primeiros temas, algo mais positivo, mais feliz, diferente dos ambientes do disco anterior. Alguns remetiam-me para uma época algo distante da que vivemos agora. Talvez não fosse por acaso e até resultasse de uma tentativa inconsciente de esquecer o presente…”
Rodrigo sempre se mostrou interessado em explorar géneros diferentes – valsa, tango, chanson, samba, neoclássico, ambiental e indie – como se os seus discos fossem viagens registadas e atravessadas pelo seu olhar. É um disco cinemático, uma viagem por canções e ambientes diversos revistos pela modernidade do tratamento a que as submete, nascidas de momentos de inspiração feliz agarrados a quente.

 

Rodrigo Leão O Metodo – 2021 Tour Portugal

O MÉTODO –  PROJETO

RODRIGO LEÃO FALA SOBRE “O MÉTODO”

Comecei a procurar ideias para este novo trabalho em meados de 2017, no meio de uma tour europeia com o Scott Matthew, depois do lançamento do CD Life is Long.

Como é habitual no meu processo criativo, os primeiros passos são sempre muito intuitivos e sem nenhum método! Algumas ideias surgiram em quartos de hotel. Em Novembro de 2017 gravámos as primeiras ideias no nosso estúdio caseiro, mas ficámos com dúvidas.

A verdade é que, depois de três trabalhos muito diferentes entre si – A Vida Secreta das Máquinas, O Retiro Life Is Long – a minha necessidade de procurar novos caminhos aumentava, a par das influências de compositores como Nils Frahm, Ólafur Arnalds ou Max Richter.

Foi neste contexto que convidámos o músico e produtor italiano Federico Albanese para se juntar a nós. Tanto eu como o Pedro Oliveira e o João Eleutério percebemos que fazia sentido neste trabalho termos um ouvido de fora, e o meu amigo e manager António Cunha já tinha sugerido que experimentássemos trabalhar com um elemento novo.

Este momento coincidiu com outro não menos importante: o convite para compor música para uma exposição na Fundação Calouste Gulbenkian, “Cérebro – Mais Vasto Que o Céu”. Nesse trabalho, co-produzido pelo João Eleutério e pelo Luís Fernandes, aprendemos muito sobre sonoridades ambientais electrónicas, que viriam a ser muito úteis neste novo disco.

As primeiras sessões de trabalho não foram fáceis, mas rapidamente chegámos a um método de trabalho que nos permitiu aproximar-nos das ideias que procurávamos. O Federico foi muito importante neste processo, propondo arranjos e instrumentações diferentes. Com a sua ajuda, as minhas ideias começavam a fazer sentido e todo o ambiente mais minimalista, etéreo que pretendia estava agora mais visível.

O Método acabou por ser o disco onde toquei mais piano acústico, o que veio mudar muito o som geral, para além de haver menos uso das cordas. E recorremos também a um coro juvenil com cerca de 20 vozes, que era uma das minhas ideias desde cedo.

É um disco mais contido, mais simples, mais depurado. Um pouco mais espiritual também… A própria música, mais ambiental, afasta-nos da nossa realidade. Assumi também um lado ingénuo que já sentia em alguns dos trabalhos anteriores.

Nos temas cantados, a minha intenção era inventar palavras, para não ter de usar nenhuma língua específica e tornar as canções mais abstractas. Existe um tema em inglês, “The Boy Inside”, cantado pelo Casper Clausen dos Efterklang; um cantor sugerido pelo Federico, mas que eu já conhecia e de que gostava muito. Outro tema, “O Cigarro”, é cantado em russo pela violinista Viviena Tupikova, que também escreveu a letra e toca há muito comigo. A cantora Ângela Silva, com quem trabalho há muito, também foi muito importante, quer pela sugestão de arranjos vocais, quer pela maneira pouco habitual de cantar com palavras que não existem.

O título foi mudando ao longo do tempo, mas O Método acabou por ser óbvio. Porque foi o disco onde mais procurámos um método para chegar a um resultado final. Mas para mim é muito mais interessante sentir o método de uma forma mais abstracta, filosófica.
Teremos todos um método interior para tentarmos fazer algo, para comunicarmos, sonharmos?

Vejo nestas músicas muitas perguntas que não têm respostas. Vejo uma criança a apontar para o céu: porque é que existimos? Para onde vamos depois de morrer? Qual o sentido da vida?

Gosto que a minha música faça perguntas, mesmo que elas não tenham resposta. Quer dizer que ela comunica com quem a ouve, que nos ajuda a pensar e a sonhar.